Livros bons e nem tanto

Há questões envolvendo a produção literária que são subjetivas, nos escapam. O que torna um texto digno de ser considerado um clássico? O que o faz atravessar séculos sem que se torne datado? E a mais intrigante: o que o faz tornar-se uma unanimidade entre os leitores?

Para tentar entender essas nuances, entrevistamos especialistas em literatura, leitores vorazes, escritores e livreiros, a fim de que discorressem sobre livros encantadores, divertidos, entediantes. Ao final dessa jornada, uma única certeza: nenhum autor está imune à crítica e desdém do público. Por mais genial e revolucionária que seja sua obra, ela pode ser alvo de decepção.

Um livro, em particular, está na lista dos mais “incompreendidos”. Ulisses, de James Joyce, apontado pela crítica como uma das obras mais instigantes do século XX, é um exemplo claro de uma quase unanimidade de derrota da leitura prazerosa.

A escritora, professora e membro da Academia Pernambucana de Letras, Luzilá Gonçalves Ferreira, tentou e não conseguiu concluir a obra. “É um livro monótono, muito discursivo e enfadonho. E olhe que se passa em 24 horas…”, brinca a escritora. Ela afirma, ainda, que não o leu e não tentará ler novamente.

Se você pega um livro que você não gosta, deixe de lado. Leia outro. A vida é muito curta.

Luzilá Gonçalves Ferreira

O também escritor e acadêmico pernambucano, Cícero Belmar, é outro que não conseguiu ler Ulisses. “Acho que é um livro que tem qualidades, caso contrário não teria reconhecimento acadêmico. Respeito muito quem já leu até o fim, mas eu tentei ler muito cedo e não consegui dar continuidade à leitura. Também não tive mais necessidade de tentar ler”, explica.

Escritor e jurado dos principais concursos literários dos últimos 20 anos no Brasil e em Portugal, José Castello ressalta que não há um livro, propriamente, que deteste. “Todos os livros, mesmo os piores, carregam o empenho da luta, um pouco do sangue de quem os escreveu. Mas existem livros – grandes livros – em que não consegui entrar. Um exemplo notável é o Ulisses, de Joyce. Já tentei lê-lo, avancei, insisti, mas nada. Não consigo entrar. Não preciso dizer que o defeito é meu, não de James Joyce.”

Ganhadora do prêmio Livro do Ano do Jabuti de 2020, a escritora Cida Pedrosa também não conseguiu se afinar com a leitura de Ulisses. “Não gosto de Ulisses, talvez por ter lido muito jovem. É um livro que preciso reler, com a maturidade dos 60 anos, para ver qual impacto me causará. Naquela época, aos 20 anos, não bateu. E não é porque seja difícil de ler, não é difícil, é porque não bateu.”

Outros autores

Joyce não é o único grande autor a ser repelido por leitores experientes. A paixão segundo GH, de Clarice Lispector – no qual uma mulher em crise se depara com uma barata durante uma faxina – , é apontado pela escritora mineira Maria Clara Arreguy como uma obra chata. “Causou apenas o incômodo de algo desagradável, e do qual não me deu nenhum prazer participar. A grande dama me ficou devendo essa”, diz.

O poeta brasiliense Nicolas Behr, por sua vez, não conseguiu ler O processo, de Franz Kafka. “Incorporo o personagem Joseph K. de tal forma, que a sua angústia vira minha angústia. Perco totalmente a tão sonhada paz interior. Cada página é como um arranhão. Chego despedaçado ao meio do livro”, justifica.

Já o jornalista, escritor e apresentador do programa Leituras na TV Senado, Maurício Melo Junior, diz que o livro Zélia, uma paixão, de Fernando Sabino, foi uma de suas decepções. “Li com desgosto e pena, pois além de estar carregado de chavões e psicologia rasteira, traz um texto bem aquém do talento de Sabino. Uma triste comemoração aos 50 anos de carreira do autor.”

O professor de Literatura da Universidade Federal de Alagoas e livreiro, Murilo Alves, aponta como intragável uma obra que está entre as preferidas de muitos leitores. “Um autor cujos livros não consigo terminar é José Saramago… Ilustro minhas dificuldades citando o livro Ensaio sobre a cegueira, que achei enfadonho e cansativo. Talvez porque o comparasse com a obra-prima de Albert Camus, A peste, que já reli algumas vezes.”

Por falar em Camus, o ex-ministro Raul Jungmann, leitor voraz, cita exatamente uma obra do autor franco-argelino como a responsável por desapontá-lo. “O livro que não entregou o que eu esperava foi A queda, de Albert Camus… Ele tem um linguajar recorrente, que dá voltas, parece que está sempre recomeçando”, pondera Jungmann.

O crítico literário e professor universitário Lourival Holanda diz não tolerar livros teóricos, sistemáticos, doutrinários, com pretensão de verdade. Mas na hora de classificar uma leitura chata, cita Prosopopeia (uma das primeiras obras da literatura brasileira), escrita por Bento Teixeira, como a que mais detestou. “É um saco”, resume.

O ganhador do Prêmio Jabuti de 2000 e do Prêmio São Paulo, de 2010, o romancista Raimundo Carrero, aponta Almas mortas, de Nikolai Gógol, como uma decepção. “É uma obra gigantesca. Tinha tudo pra ser fantástico. Mas a leitura pessoal é enfadonha, pesada, cansada. Achei que ele teria a dimensão de um Dom Quixote de La Mancha, mas foi uma decepção.”

A leitura de Salvar o fogo foi decepcionante para o roteirista de cinema, e leitor apaixonado, Hilton Lacerda. “No caso de Itamar Vieira não se trata de achar o livro Salvar o fogo ruim, uma vez que sua leitura ocorreu sem maiores esforços, já que o autor é dono de uma escrita sedutora, atraente, instigante. O que me deixou menos entusiasmado em reação às suas obras anteriores foi, durante a leitura, perceber certo esquematismo de temas e traumas e tais. Como se revelasse uma preocupação pela unanimidade, ambição que acho maravilhosa quando bem-urdida, diga-se de passagem. Mas, às vezes, para alcançá-la, temos que satisfazer pensamentos em demasia.”

O professor Alexandre Figueirôa tem seus desafetos literários. Detestou Sensualidad de la Pantera Rosa, de Efraym Medina Reis, um dos maiores escritores colombianos. “Posso não ter entendido a proposta, mas se a intenção do autor é sacudir o leitor com um protagonista tóxico, misógino, gordofóbico, não deu para encarar.”

O jurista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, José Paulo Cavalcanti Filho, diz que não continua a ler os livros que não gosta. Abandona-os no começo da leitura. Mas, brincando, diz que a leitura mais enfadonha foi a do Dicionário. “Parei na letra R.”

O escritor e crítico musical José Teles tentou ler O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry, aos 14 anos, por causa de uma namorada, e detestou. A mestra em literatura brasileira pela UFPB, Heloísa Arcoverde de Morais, diz odiar livros de autoajuda, mesmo os célebres, a exemplo de Verônica decide morrer e O alquimista, de Paulo Coelho. “Mesmo que encantem a mente e o coração das pessoas, não me atraem. Prepotência, arrogância literária? Segura de si? Não li, não gostei? Aos autores minhas desculpas; talvez eu esteja precisando de ajuda psicológica e literária, quem sabe?”, provoca.

O amado cavaleiro

No quesito livros amados, o clássico Dom Quixote de La Mancha , de Miguel de Cervantes, arrebata entusiasmo e elogios. É atemporal, diverte, encanta, dizem seus admiradores. Carrero o classifica como uma obra-prima. “Adoro Dom Quixote porque, além do seu humor latente, apresenta o homem em todas as suas dimensões, com todas as suas qualidades e defeitos. Nele, você compreende a densidade, a força, a grandeza e a mediocridade humanas.”

Não só isso. Para Raul Jungmann, o cavaleiro de La Mancha é “uma fantástica história e também profunda sátira dos costumes da aristocracia, da cavalaria, e a decadência de todo o mundo, captada pelo seu autor”.

O personagem alto e magro, que lutava contra os moinhos de vento também fascinou Mauricio Melo Júnior, que não cansa de reler, devido ao seu “discurso picaresco, poético e filosófico”. Mas, paralelamente, e com ainda mais vigor, outro livro tornou-se seu favorito. Os ambulantes de Deus, de Hermilo Borba Filho, que o fez descobrir que “a literatura estava em meu quintal”. “Morava então em Palmares, cidade que o escritor descreve com poesia, elementos oníricos e denúncia social. Uma beleza que até hoje me alumbra.”, celebra Maurício.

Deus no pasto, outra obra de Hermilo, foi quem mobilizou a atenção de Hilton Lacerda, “Quando comecei a lê-lo, fiquei impactado com a construção, a linguagem, as estratégias… O uso da autoficção como elemento estrutural revelou um escritor dono de vários tempos e senhor de muitos espaços”.

Para Maria Clara Arreguy foi especialmente divertido ler Sujeito oculto, de Mauricio Melo Júnior, que conta a vida secreta de um escritor fictício que entra na vaga de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras. “No dia da posse, ele faz um discurso bombástico atacando a torto e direito os podres da Casa de Machado de Assis... uma trama curiosa em torno da literatura brasileira.”

Europeus e latino-americanos

Conhecido pelos textos repletos de sátira e ironia, o crítico José Teles tem em As aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens, a sua base literária. “Ele foi uma das influências no meu estilo de escrever crônicas e textos de humor”, confessa.

O encantamento de José Paulo Cavalcanti Filho com a literatura, primeiro se deu com o Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, a quem dedicou uma biografia e alguns estudos. Mas o seu êxtase aconteceu após a leitura de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, que classifica como “meu primeiro grande livro, inesquecível. Foi meu primeiro alumbramento literário, para usar palavras (“Evocação do Recife”) do pernambucano Manuel Bandeira”.

Também foi um latino americano o responsável pelo fascínio de Cícero Belmar. “Pedro Páramo, de Juan Rulfo, é um romance incrível, curto, mas intenso… Foi um livro que me impactou, mas também me divertiu bastante, pois eu ficava na dúvida se as personagens estavam vivas ou mortas. Li duas vezes o livro e minha dúvida continua… também percebi uma bela poesia sobre a morte.”

As cidades invisíveis, do italiano Ítalo Calvino, para Nicolas Behr, é a obra que mais lhe excita a imaginação. “A cada cidade descrita por Marco Polo ao Grande Khan, mil novas facetas se revelam. É um livro que não cansa nunca. Merece estar em sua cabeceira, para navegar por entre canais suspensos ou portos secos. “

Em termos de divertimento, Alexandre Figueirôa cita um livro que considera envolvente. Um santo em Marte, de Rogério Campos, é descrito como uma história que mistura thriller policial com ocultismo, espionagem e outras coisas mais. “Comecei desconfiado, mas embarquei, e me diverti muito com a trama apocalíptica sobre um grupo de assassinas que têm como missão matar os homens mais ricos do mundo.”

Sensibilidade

Menos festivos, mas não menos prazerosos, são as obras que fazem a alegria de Lourival Holanda. Entre eles, o Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, que o crítico afirma ter lhe mostrado que seu caminho era o da literatura. “Até então, não tinha tocado em livro de densidade expressional tão forte.”

Denso, mas igualmente apaixonante para José Castello, é O processo, de Kafka. “Li pela primeira vez muito jovem. Logo me identifiquei com o desamparo, a solidão atroz, a precariedade de Joseph K. Aquele era também meu mundo… Aquele ainda é, hoje, aos 73 anos, meu mundo.”

São Bernardo, de Graciliano Ramos, é o livro que Heloísa Arcoverde ama desde a adolescência. Essa empatia foi provocada pela personagem Madalena, uma figura sensível, humanitária, mas que é anulada pelo autoritarismo do marido. “(Madalena) que de fictícia, para mim, não tinha nada. Era real.” No livro, diz Heloísa, mulher e propriedade se confundem. Ciúme, truculência. Desde sempre, o machismo, a violência contra a mulher, o feminicídio...”, conta Heloísa que ficou impactada com a história: “Hoje, Madalena tem um nome: Maria da Penha.”

Longe do machismo e da violência, Luzilá Gonçalves elege A estepe, de Anton Tchecov, como uma das leituras que mais prazer lhe proporcionou. Para ela, a história do menino que viaja pela estepe para chegar a um colégio, traz muita delicadeza e beleza. ”O livro é uma viagem biográfica. No caminho ele vai parando nas estalagens, conhecendo o povo russo. É um retrato da Rússia antes da revolução. E esse menino vai conhecendo e amando sua terra, amando as pessoas que encontra. É uma obra de amor a sua cultura e compatriotas”, diz.

Um livro de que Cida Pedrosa gostou muito, e que alerta que não é divertido, mas de extrema ternura, é Mauricéa, da conterrânea Adrienne Myrtes, finalista do Prêmio Jabuti em 2019. A história acontece no Recife, com a Rua da Aurora, o Rio Capibaribe e outros cenários da capital como planos de fundo.

Metafísica e paradoxo

A crise do mundo moderno, do metafísico francês René Guénon, que não tem nada de divertido, mas é um livro de grande espiritualidade, e uma leitura constante de Murilo Alves. A entrada desse livro na mão do livreiro se deu por caminhos “tortuosos”. Quando ainda era adolescente, ele escreveu em seu caderno de matemática, o nome Roger Zenon, que não lhe dizia nada, no momento, mas que depois faria sentido. Anos mais tarde, um cliente da Livraria Síntese, que Murilo comandava, que conhecia seu gosto por espiritualidade, vendeu-lhe um exemplar de um livro raro e usado, A crise do mundo moderno. “Foi esse livro que me abriu horizontes insuspeitados”, diz Murilo, que completa: “Curiosamente, quando me lembro desses momentos, ao comparar os dois nomes, percebo como foneticamente se aproximam”, diz Murilo.

Extremamente paradoxal, o romancista Sidney Rocha aponta como o livro de que mais gosta A Ilíada, de Homero. E o que acha mais chato, a mesma A Ilíada. Mas explica os motivos. “Gosto porque seus personagens são cativantes: Aquiles, Heitor, Ulisses, são gente viva, e são capazes de prender sua atenção no mais alto grau. Hera, Atena, Zeus, Apolo, deuses tão imperfeitos quanto os homens, esse arrebatamento promovido pelas paixões, temas como amor, honra, loucura, política, coragem, vingança e a ideia de um destino sempre avassalador sobre cada uma daquelas cabeças, fazem parte de uma concepção poderosa demais para não nos tocar. Isso torna A Ilíada um dos livros mais divertidos entre as narrativas antigas.”

Apesar de todo fascínio pelo enredo, Sidney reclama da tradução chata, uma vez que leu o livro em prosa, e não nos versos originais. “A sensação de estar lendo uma ‘adaptação’ , nesse caso, ou algo bem distante do original é um grande desestímulo. Problema meu, de não saber ler no original”, finaliza.