A Academia Brasileira de Letras é a cláusula pétrea da cultura brasileira. É patrimônio maior. Em inglês, patrimônio é landmark. Marca de pedra da terra. Aquela marca que os descobridores dos novos caminhos cravavam nas terras então inéditas para eles. Serviam para orientar os próximos viajantes. Orientavam, sinalizavam, educavam nos novos caminhos. Marco do descobrimento. Como este de Porto Seguro: Somos e vivemos, desde então, a educação pela pedra, diria João Cabral.
Somos e vivemos, desde então, a educação pela pedra, diria João Cabral.
Entretanto, mesmo sendo a pedra sólida, dura, egoísta, fixa e fixada, tanto muda. Como muda este amanhã do século XXI feito de tantas mudanças que já nos sentimos incertos. Para onde vamos?
Que mudanças são essas que se anunciam? Em nossos celulares, em nossos laptops, em nossas inteligências artificiais. Graves mudanças como a de Gutenberg.
No século XV, começamos a passar das cartas manuscritas dos navegadores desde então já denominados internautas, ou copiadas pelos frades copistas em seus monastérios, e ou popularmente lida nas feiras quase como cordéis. Quando passamos aos livros feitos através da imprensa de ferro e madeira, o mundo assustou-se.
Como se assusta agora com as novas tecnologias. Tudo ficou maior, mais possível e mais instantâneo. Gerações envelheceram da noite para o dia. De repente, o leitor ficou analfabeto.
As relações entre o livro, o ler e os leitores ficaram infinitas. Intermediadas pelos aplicativos.
Na comunicação entre, de um lado, o livro-autor-emissor, de outro o ler-leitor-receptor, introduziram-se com força transformadora total os aplicativos. Que diluíram e refizeram a natureza desta relação.
A Inteligência Artificial, ponte invisível, hedge, faz do leitor autor também. Você pode ler o livro que quiser no livro que escolher. Nunca tantos leram tanto. Livros completos, fragmentados, partidos, estendidos, diminuídos.
Mas alguns diriam, não foi sempre assim? Foi.
A nova leitura tecnológica apressa o tempo. Aprofunda e detalha palavras. Faz analogias impensáveis. Pode-se pensar e ler contraditório ao mesmo tempo. Lê e deslê ao mesmo tempo. Fertiliza, aduba, floresce o prazer e o conhecer.
Não tenho mais que obedecer ao roteiro proposto, as ideias concatenadas. No livro que leio, produzo. Faço-me melhor em minhas ideias. O livro é um “starter” de meu próprio livro sendo do outro.
O Notebook LM da Google exemplifica esta revolução. Com ele, posso fazer upload de um livro em domínio público e estruturar minha leitura de maneira personalizada, determinando o nível de detalhamento e de abordagem desejada.
Como fazia com livros físicos, posso começar pelo índice, avanço capítulo a capítulo e faço perguntas sobre os conceitos apresentados. Volto. Revolto. Complemento-me. O próprio livro me responde como se fosse uma terceira pessoa. A leitura não é passivamente monológica. É ativamente dialógica.
Posso optar por resumos detalhados e até – mais importante – posso ler sempre no idioma original, mesmo que não o domine completamente. Posso até fazer do livro um podcast.
A leitura, agora, pode ser a produção do ouvir também.
Enfim posso fazer minha própria imersão no conteúdo de forma mais conveniente. São múltiplos os caminhos para se ler um livro. Como bem aponta Fernanda Montenegro.
Mas atenção. Maior revolução não é os aplicativos serem mais rápidos. Instantâneos. Mas encontrarem, mapearem, juntarem, separarem, multiplicarem, refazerem os dados pré-existentes. Guardados, trancados, encerrados em bibliotecas. As bibliotecas são as nuvens de outrora. Sempre foram. Fizeram pontes de tangíveis livros a intangíveis ideias. De materiais a imateriais. Guardavam as pedras imateriais.
A matéria-prima, a maior revolução, a unidade do ler tecnologizado, são as ideias. Na leitura, as ideias ficam palpáveis, são analogias, são simetrias, são divergências, convergências, são outras, são minhas. São peças de Lego, são caleidoscópios, xadrez. Patchwork.
A nova tecnologia da leitura, ao contrário do que muitos acreditam, não extermina as físicas bibliotecas tradicionais. Nem mesmo a de Alexandria ou a de Jorge Luís Borges. Dependem delas. De todas. São data centers que guardam os livros que são pedras.
O pensar está dentro delas. A tarefa de uma Academia Brasileira de Letras é guardar suas pedras e difundi-las. Promover a leitura tecnológica delas. Agora, com possibilidades muito maiores. Transformá-las em nuvens atuais. Pois as pedras, em nuvem, são muito mais fáceis de se encontrar. Não se vai mais às bibliotecas. As bibliotecas são que vêm a você. Sem elas, não nos somos.
P.S.: A propósito, o artigo 60, §4º, da Constituição enumera o que chamamos, na doutrina jurídica, de cláusulas pétreas. Pétreas porque os constituintes as imaginaram imutáveis. Não podiam ser modificadas ou abolidas. Não perceberam que pedras também mudam. Ressignificam-se. São pétreas apenas no sonho do texto. Não na sua realidade. A constituição é apenas um desejo. Que, quando necessário, muda na busca desesperada dos novos tempos.