Silencio es palabra de mi vocabulario.
Habiendo trabajado la música,
la he usado más que los hombres de otros oficios.
Alejo Carpentier, Los passos perdidos
Como escrever e pensar um grande amigo que nos abandona inesperadamente, um poeta todo arte e política, como Demosthenes Agrafiotis, no sentido que as raízes da sua língua e cultura gregas nos ensinam? Faltam-me palavras... Desde novembro passado tenho sobrevivido sem palavras que possam dizer aquilo que talvez melhor disse Fernando Pessoa da morte de Mário de Sá-Carneiro: “Hoje, falho de ti, sou dois a sós”. De muitas partes chegaram-me pedidos de textos sobre o acontecido, não consegui honrar nenhum deles, ainda que fosse crucial marcar a data da despedida, referir o memento dando notícia ao mundo. Infelizmente nada, permaneci vazio de fórmulas possíveis para celebrar in memoriam um amigo dessa magnitude. Soube da sua morte quando estava em Veneza para um concerto com Nicholas Isherwood e Daniele Del Monaco na Fondazione Archivio Luigi Nono, na Giudecca. Demosthenes amava Veneza, amava a Itália. Resolvi sair do hotel para uma caminhada para pensar sobre a terrível notícia e tornei a Galleria dell’Accademia para rever La Tempesta de Giorgione, um quadro que para Demosthenes representava motivo de reflexão sobre ameaça e estímulo, temas profundamente contemporâneos. É isto então, tornamo-nos, cada vez mais, matéria para esse anômalo depósito de memórias e seu insaciável apetite, o tempo. Envelhecemos tentando preservar ao máximo a sóbria consciência da inevitável soberania da morte, mas no ano passado foram necessários dedos de duas mãos para contar os amigos que se foram, não lembro precisamente quantos neste momento. O ano de 2025, além de tantas alegrias, foi inquestionavelmente difícil.
Para falar aqui um pouco de Demosthenes, prefiro deixar-me guiar livremente por lembranças do nosso primeiro e do nosso último encontro, e pelos seus versos, a matéria enérgica com a qual cantou a vida em suas belezas e conflitos. Um artifício: aproveito para apresentar minha tradução do seu livro publicada no Brasil pela Confraria do Vento; dividirei o primeiro encontro e o último usando o mesmo elemento, a vírgula “,” que compõe a narrativa oculta no título do livro N,ÃO. Assim, serão dois momentos, o primeiro (1º) N e o segundo (2º) ÃO. Todo o resto é vírgula, é poesia.
CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA
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