Um navegante em busca de um porto

Francisco Mota Saraiva tem sempre na cabeceira um livro de Sêneca e, agora, carrega consigo o peso do Prêmio Saramago

Francisco Mota Saraiva posa para as fotos da entrevista ao lado da oliveira onde estão depositadas as cinzas de José Saramago, em Lisboa. A imagem carrega um forte simbolismo, afinal, ao vencer em 2024 o prêmio literário que ostenta o nome do escritor português, o autor passa a compor o seleto rol dos “frutos” do único Nobel de Literatura em língua portuguesa.

Advogado de formação, Morramos ao menos no porto é o segundo livro escrito pelo lisboeta de 37 anos, que em 2023 já havia sido agraciado com o prêmio Agustina Bessa-Luís, dedicado aos autores “revelação” em Portugal, com o seu primeiro trabalho, Aqui onde canto e ardo (editora Gradiva).

O prêmio como “revelação” em 2023, de alguma forma, confirma a vocação do Prêmio Saramago e posiciona o autor ao lado de outros nomes que um dia também foram considerados “uma promessa” e acabaram por se tornar uma realidade da literatura em português, facilmente conhecidos pelos leitores dos dois lados do Atlântico.

Nomes como os portugueses José Luís Peixoto (vencedor em 2001), Gonçalo M. Tavares (2005), Valter Hugo Mãe (2007), João Tordo (2009) e Afonso Reis Cabral (2019); as brasileiras Adriana Lisboa (2003) e Andréa del Fuego ( 2011) e os brasileiros Julián Fuks (2017) e Rafael Gallo (2022); além do angolano Ondjaki (2013).

Francisco Mota Saraiva sabe do peso da importância e da responsabilidade de figurar nesta lista. “Os prêmios têm a importância que têm e são percebidos pelos atores da área da literatura, escritores, editores e leitores, de formas diferentes. Mas é inegável que o Prêmio Saramago tem um valor acrescido por carregar o nome que carrega”, diz.

A entrevista aconteceu na esplanada de um dos vários cafés ao largo da Casa dos Bicos, sede da Fundação Saramago, com vista para o Tejo, o emblemático rio lisboeta que poderia ter inspirado o “porto” do título da obra vencedora. A inspiração, porém, tem uma motivação mais filosófica do que natural.

“Sêneca é um escritor em que volto muitas vezes e sempre tenho um livro dele na cabeceira. Quando estava a escrever, li um de seus aforismos, vivemos no meio das ondas, morramos ao menos no porto, e achei que fazia sentido com a obra que estava a criar, a rondar um amor que se prolonga para lá da morte de um dos elementos do casal”, conta o escritor.

Sem revelar mais sobre a história, o autor insiste que o plot dialoga com o título roubado a Sêneca, ao confrontar os dilemas humanos. “Será que vivemos melhor entre as ondas, as vagas da vida, ou no porto, em terra firme, que um lugar de abrigo?”, questiona.

Nascido em 4 a.C. na atual região onde é a Espanha, Sêneca mudou-se para Roma onde virou um dos principais nomes do estoicismo, a corrente filosófica que apostava todas as fichas na força da virtude. O conceito estoico de que o homem carrega essa virtude e acaba por se “contaminar” no contato com os outros permeia a relação do autor com a literatura.

“Sêneca escreve que quando estamos no nosso mundo pessoal estamos protegidos e, depois, quando deixamos esse lugar tendemos a ser de alguma forma contaminados pelos vícios dos outros. Na literatura, busco a reclusão neste sentido estoico, de não contaminar a minha literatura, embora também precise me contaminar com o mundo exterior”, explica.

A ideia de evitar a “contaminação” da sua literatura é igualmente ambígua em relação às influências literárias do escritor. “Saramago, António Lobo Antunes, Céline e Borges estão entre os escritores que me mostraram o que era possível fazer com a literatura. Ao mesmo tempo que me influenciaram, são nomes e estilos que tento confrontar enquanto escrevo.”

A ideia de evitar a “contaminação” pelos nomes que o inspira, reforça Francisco Mota Saraiva, é de construir um próprio caminho como escritor, em busca de uma voz sua, que possa ser identificada pelos leitores.

“O escritor é produto de tudo aquilo que leu e de um conjunto de influências e vivências que, no final, transformam-se numa voz. Sei que há uma voz minha como autor, mas de onde ela vem precisamente é inexplicável. Porém, algumas pessoas a quem eu dei os meus dois livros para ler parecem escutá-la”, conta o escritor.

Uma voz que certamente estará no próximo livro, ainda em fase de produção. “Sou um escritor lento. Escrevo no máximo uma página por dia, sempre pela manhã. Não consigo escrever à noite. O meu primeiro livro levou dois anos, o segundo não muito diferente. Agora, que sou pai (o filho tem 3 anos), ando a dividir ainda mais o meu tempo”, confessa.

Somada à paternidade está a carreira jurídica, que se lhe rouba tempo, também serve de material para a escrita. “Para mim, foi importante estudar Direito, pois todos os aspectos da existência humana são permeados por uma certa ordem jurídica e é útil conhecê-la, seja tanto para escrever sobre um crime como uma relação amorosa”, justifica.

CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA

Venda avulsa na Livraria da Cepe