Entre a perda e a ancestralidade

Bruna Lombardi lança nesta quinta, 23, na Flip, Mulheres que sentem os espíritos, livro que parte de uma narrativa de perda e acaba se transformando em revelação e encontro de si mesma

Bruna Lombardi pautou-se nas mulheres de sua família para criar essa teia de amor, crescimento e descobertas
Bruna Lombardi pautou-se nas mulheres de sua família para criar essa teia de amor, crescimento e descobertas

A escritora, diretora e atriz Bruna Lombardi lança nesta quinta, 23, e sexta, 24, seu novo romance durante a Feira Literária de Paraty (Flip). Em  Mulheres que sentem os espíritos, a autora constrói uma narrativa sobre o luto, a memória e as formas pelas quais uma mulher pode descobrir que desconhece parte da história de sua própria família. 

O romance acompanha Lorena depois da morte da mãe, sua referência emocional mais próxima. O acontecimento, porém, não se encerra na ausência. Ao entrar no quarto da mãe e confrontar sua intimidade, ela encontra vestígios de uma vida que não conhecia. A morte, então, transforma-se também em revelação.

A autora admite que, apesar de ficcional, as personagens são inspiradas em suas antepassadas, cujas experiências e características estão espalhadas entre as muitas personagens femininas. A partir da dor da partida da mãe e da descoberta de que ela era uma mulher a quem não conhecia completamente, Bruna Lombardi desloca a narrativa do espaço doméstico para uma viagem que conduz Lorena, Dora,  sua irmã de criação - ligada a uma linhagem afro-brasileira e ao candomblé - e as tias da protagonista à Grécia, origem familiar que passa a funcionar como território de memória e investigação.

A jornada para lançar as cinzas da mãe no mar Egeu não é apenas um rito de despedida. É também uma tentativa de compreender o que permanece quando uma geração desaparece e aquilo que foi silenciado começa a retornar.

O romance se organiza em torno de uma ideia de herança que não é apenas material ou biográfica. As mulheres carregam histórias, traumas, crenças, culpas, desejos e formas de resistência que atravessam gerações. Nesse sentido, os espíritos do título podem ser compreendidos tanto como presenças sobrenaturais quanto como imagens daquilo que continua atuando sobre os vivos: os mortos, os segredos, as experiências não elaboradas e as marcas deixadas por quem veio antes.

Essa ambiguidade é uma das chaves do livro. Bruna Lombardi não trata a dimensão espiritual como um sistema fechado de crenças. A narrativa aproxima diferentes tradições e sensibilidades, estabelecendo uma convivência entre a herança grega, o candomblé e outras formas de perceber a continuidade entre vida, morte e memória.  A espiritualidade, nesse contexto, não se apresenta como resposta definitiva, mas como uma maneira de interrogar o que a razão nem sempre consegue explicar. 

Mulheres

A relação entre Lorena e Dora ocupa lugar central nessa travessia. A amizade entre as duas permite que o romance trate também de diferenças de origem, de raça e de formação espiritual. Dora não aparece apenas como acompanhante da protagonista, mas como personagem que traz para a narrativa outra compreensão do mundo e da ancestralidade. 

Bruna Lombardi também introduz o humor como elemento de equilíbrio. As tias de Lorena, teatrais, hiperbólicas,  ajudam a deslocar a narrativa de uma atmosfera exclusivamente marcada pela perda. A presença delas impede que o luto se instaure. O humor aparece como forma de sobrevivência e de convivência, lembrando que a dor não elimina o absurdo, a contradição e as pequenas situações que continuam compondo a vida.

Levando em conta as analogias feitas pela autora à mitologia e filosofia grega, a história pode ser descrita como uma jornada do herói, como descreve o escritor Joseph Campbell.

“Podemos dizer que  ela (a história)  é uma odisseia feminina, uma odisseia de mulheres que vão em busca, cada uma com as suas idiossincrasias, com as suas ideias, com o seu humor, com as suas dores, com as suas fraquezas, enfim, em busca da missão que têm a cumprir”, explicou Bruna Lombardi.

No livro, a viagem exterior corresponde a uma transformação interior. A Grécia não é apenas destino geográfico. É o lugar onde a protagonista se aproxima de uma origem familiar que lhe parecia distante e, ao mesmo tempo, confronta aquilo que desconhece sobre si mesma. A travessia pelo mar Egeu torna-se uma passagem entre o que foi herdado e o que pode ser escolhido.

A dimensão feminina do romance não está apenas na presença de muitas mulheres, mas na tentativa de observar como suas histórias se prolongam umas nas outras. As personagens são atravessadas por perdas, violências, culpas e silêncios, mas também por vínculos que permitem reconstruir a vida. A família, aqui, não é apresentada como espaço sem conflitos. É justamente a existência de segredos e rupturas que torna necessária a busca por novas formas de compreensão.

O livro parte do luto, mas não termina nele. Sua trajetória conduz a uma possibilidade de reconexão com a própria história. A espiritualidade, nesse percurso, funciona menos como uma explicação do mundo do que como uma linguagem para falar daquilo que permanece invisível. Entre a memória familiar, a amizade, a ancestralidade e a experiência do mistério, Bruna Lombardi escreve uma narrativa em que a despedida se transforma em conhecimento: para compreender os mortos, talvez seja necessário primeiro reconhecer que nunca conhecemos inteiramente os vivos.


Roteiro de lançamentos

Bruna inicia a jornada de lançamento do livro, que acontecerá em várias capitais, nesta quinta, às 19h, no Sesc Santa Rita, em uma mesa  com a presença de Tati Bernardi. Na sexta, nova sessão de autógrafos será feita a partir das 13h, na Casa Record, editora responsável pela publicação da obra. 

No sábado, ainda na Flip, às 18h30, a autora participa de uma nova mesa redonda, desta vez com Leonêncio Nossa, autor da biografia de Guimarães Rosa. Na ocasião, ela deve comentar, também, o relançamento do livro Diário do Grande Sertão, registros dos meses em que atuou como Diadorim, na série realizada pela Globo nos anos 1980.

De Paraty, Bruna Lombardi parte para uma maratona de viagens pelo Brasil para divulgar seu novo romance. Durante todo o mês de agosto ela visitará Curitiba (dia 5), São Paulo (13), Belo Horizonte (18) e Rio de Janeiro (25).

No dia 28 de agosto, ela volta a lançar o livro na Fliparacatu, em Minas, com a presença de Eduardo Gianetti e Jamil Chade na mesa de debates. No dia 30 estará em Brasília. E fechando a maratona, participa da Bienal do Livro de São Paulo no dia 8, em uma mesa com o escritor Mia Couto e com o autor de Para ler Grande Sertão Veredas, Ítalo Moriconi. 



Serviço

Mulheres que sentem os espíritos

Bruna Lombardi

Editora Record 

R$ 79,70

Lançamento na Flip nesta quinta, dia 23

Local: Sesc Paraty - Unidade Santa Rita - RJ

A partir das 19 h