Tradutor, romancista, ensaísta e crítico literário, Diogo Santiago é um autor que não foge da complexidade, construindo tramas densas, que mexem em feridas e situações de extrema violência. Concatenação é um exemplo: o romance é construído a partir dos vínculos invisíveis entre trauma, memória e violência. Confirma o interesse do autor por personagens situados à margem, submetidos a estruturas de poder que parecem impossíveis de romper.
Um dos aspectos mais perturbadores da obra é a maneira como ela aborda o universo carcerário. A prisão aparece não apenas como espaço físico, mas como condição existencial. Os personagens vivem encarcerados por diferentes formas de opressão: a pobreza, os traumas do passado, as relações abusivas e os mecanismos de exclusão social.
Nesse contexto, a violência sexual assume papel decisivo. Ela surge como expressão extrema das relações de dominação presentes dentro e fora das prisões. O abuso sexual é apresentado como instrumento de poder, humilhação e destruição subjetiva. Mais do que descrever a agressão em si, o romance se interessa pelas suas consequências: a fragmentação da identidade, a vergonha, o silêncio imposto às vítimas e a dificuldade de reconstruir a própria existência.
O livro também convida o leitor a refletir sobre a naturalização da violência. Em muitos momentos, o horror não está apenas nos atos brutais, mas na indiferença coletiva diante deles. As instituições que deveriam proteger frequentemente aparecem como cúmplices, omissas ou incapazes de interromper o ciclo de abusos. Essa dimensão social amplia o alcance da narrativa e impede que ela seja lida apenas como uma história individual.
A ideia de “concatenação” , portanto, vem daí: o encadeamento de fatos, escolhas e consequências, funciona como eixo central da narrativa. Nada acontece de forma isolada. Cada gesto, cada silêncio e cada ato de brutalidade repercute em outros corpos e em outras vidas. O romance sugere que a violência não é um acontecimento pontual, mas uma corrente que atravessa gerações e instituições.
Densidade
Do ponto de vista estilístico, a escrita de Santiago é marcada por densidade psicológica e atenção às contradições humanas. Seus personagens raramente são apresentados de forma maniqueísta. Em vez disso, habitam zonas cinzentas onde vítima e agressor, culpa e inocência, fragilidade e violência frequentemente se cruzam. Essa complexidade torna a leitura desconfortável, mas também profundamente humana.
Ao final, Concatenação se revela um romance sobre as marcas que a violência deixa nos corpos e nas memórias. A prisão e a violência sexual não aparecem apenas como temas, mas como experiências que estruturam a visão de mundo dos personagens. O resultado é uma obra dura, inquietante e politicamente relevante, que obriga o leitor a encarar questões frequentemente empurradas para as margens do debate público.
Por isso, Concatenação pode ser lido não apenas como um romance sobre a prisão, mas como uma reflexão sobre diferentes formas de encarceramento: o físico, o psicológico e o sexual.
Há anos morando na França, onde se formou em Educação, Letras e Literatura (Université Lumière Lyon 2), o recifense Diogo Santiago é autor de vários livros: em terras francesas publicou Asinus Asinum Fricat, pequena seleção bilíngue de textos satíricos. De lá para cá, foram quatro livros no Brasil: O Polvo, Cinco fatias de uma dor urbana e Concatenação (Prosa); e Figuranistas (Verso). Até o final de 2026, a editora Urutau lança Rumores, sua nova coletânea de narrativas. Confira abaixo uma entrevista com o autor.
O título Concatenação sugere ligação entre fragmentos, experiências e vozes. Como nasceu essa ideia estrutural do livro?
Como o título é justamente relacionado à estrutura, vale definir o tipo de “ligação entre fragmentos, experiências e vozes” que ele sugere. Digamos que, para estabelecer a continuidade sem alíneas de Concatenação, eu poderia ter optado por um tipo de “ligação” baseado na ordem cronológica (da trama); ou na ordem biológica (das personagens). Nesses casos, eu teria usado, por exemplo, o termo Conexão para intitular o livro. Em Concatenação, no entanto, eu quis realçar situações. Por um lado, situações repetidas, que conformam cada vez mais as personagens aos seus modos e costumes; por outro lado, situações inesperadas, aptas a mudar o curso de um caráter, de uma constituição, de uma complexão. Tomemos Adamastor, uma das personagens principais do romance. Trata-se de um sujeito sem qualquer qualidade explícita que o possa distinguir de outrem. Um sujeito ordinário, sem distinção social, na vida de quem tudo parece repetitivo. Até o dia em que alguns conhecidos o embebedam em uma festa de casamento e ele, que não consegue se controlar sob o efeito da cachaça, faz uma algazarra sem tamanho e termina provocando acidentalmente a morte da cachorrinha de estimação da mãe da noiva. A mãe da noiva é uma juíza de direito defensora do bem-estar dos animais, Adamastor termina no xilindró, e a pena, por razões de força maior, dura bem mais que a prescrição de início. A forma toda do romance lembra que, quando se trata não de biologia mas de biografia, qualquer parte de uma vida pode entrar em fricção com qualquer outra e provocar o inusitado, o irreversível.
A sensação de cárcere é basicamente o cerne da obra. Você percebe o aprisionamento como um tema central do livro?
Apesar de etimologicamente longínquos, “cadeia” e “prisão” são, na língua portuguesa, sinônimos. E, por definição, a concatenação é uma espécie de encadeamento. Isso implica que, para negar a importância do “aprisionamento” no texto, eu teria que recorrer a uma série de acrobacias retóricas. Prefiro confirmar que, como exaustor das situações sociais, o “aprisionamento” (no sentido de “encadeamento”) é constituinte do romance: mas como forma, e não como “tema central”. Se há um tema central em Concatenação, é o do abuso sexual. É inclusive revelador que, até agora, ninguém tenha abordado isso. Se por um lado eu estava com a caneta grávida de um texto com a forma que dei a Concatenação; por outro lado, foi um caso de abuso sexual infantil (contado por amigas) que instigou a história. Tudo gira em torno de um jovem artista de Recife, filho de um político influente, que agride sexualmente uma menina. O pai da pequena vítima mora nas bandas de Curitiba, mas fica sabendo do ocorrido, e entende que não houve nem sequer queixa prestada na polícia. Decidido, ele sai de Curitiba para Recife a fim de resolver o problema. Depois de ter matado na porrada tanto o agressor sexual quanto o irmão mais velho que o protegia, ele termina atrás das grades. Mas, é bem verdade que a história é contada de um jeito pouco convencional.
Em vários trechos, o cárcere parece menos físico e mais emocional. Isso foi consciente durante a escrita?
Não. Não foi consciente de jeito nenhum. Para mim, em Concatenação, o cárcere é simplesmente o representante-mor da física social, lugar inconfundível da restrição dos movimentos – uma vez nele, nada de metafísica, nada de metáforas.
Recife aparece no livro quase como uma entidade viva, às vezes opressora. Qual a importância da cidade na construção da atmosfera narrativa?
Nasci na Caxangá; vivi meu primeiro ano no Pina; cresci na Mustardinha. Mais recifense que isso a pessoa cai para trás. Ora, nas lembranças que tenho da minha entrada na consciência, há um pequeno recifense do coração repleto de sentimentos negativos. Sentimento de exclusão, carência, humilhação; medo do futuro. Sempre me senti desprotegido no seio da minha própria família, que até hoje nega que me humilhou durante toda a minha infância, toda minha adolescência. Nada é culpa de ninguém. Longe de mim culpar quem quer que seja do que quer que seja. “A gente fazemos o que podemos”, diria o comediante… meu coração me dizia que estava tudo programado para que nada desse certo na minha vida. Logo cedo, entendi que a única saída era ser bom na escola. Quando entrei no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco, o corpo docente logo me identificou como um prodígio…Pela primeira vez, tudo dava certo para mim. Ingenuamente, inscrevi-me no programa de intercâmbio com a universidade de Lyon. Mesmo sem dinheiro e sem bolsa de estudos, fui aceito. Pedi dinheiro a todo mundo e viajei. Quando voltei de um semestre na França, já não fui tratado da mesma forma no Centro de Educação da UFPE. Senti que me olhavam de soslaio, que falavam de mim pelas costas. Era como se a França me tivesse sujado. Então, um ano mais tarde, voltei para a França. A cada viagem que fazia ao Recife durante os primeiros anos de residência na Europa, eu sentia que estava tornando-me realmente um estrangeiro na minha própria terra. Jamais esquecerei a noite de sexta em que fui completamente ignorado na rua Mamede Simões, centro da cidade, point de bares situado entre o Parque Treze de Maio e o Ginásio Pernambucano (instituição do meu ensino fundamental). Como Recife pode fazer isso comigo? Como posso permanecer estranho em Recife se sou de Recife e digo no mundo todo que sou de Recife com orgulho e com saudade? O fato é que venho publicando na Europa e em diversas cidades do Brasil desde 2018, e Recife vem ignorando-me com uma altivez olímpica. Em suma, acho que é para não perder totalmente o contato com essa “entidade viva” chamada Recife que eu a escrevo, descrevo e inscrevo tanto... Enfim, tudo isso para dizer que na construção da atmosfera narrativa de Concatenação, Recife é, como sempre, mais importante que eu.
Sua escrita trabalha muito com fragmentação, interrupções e deslocamentos. Você acredita que essa forma expressa melhor a experiência contemporânea?
Na minha escrita, a “fragmentação”, as “interrupções” e os “deslocamentos” são signos de uma vontade de incomodar – não necessariamente a leitora ou o leitor potencial, mas certamente as convenções vigentes. Assim como no caso de qualquer contemporâneo, meu tempo me experimenta e eu experimento meu tempo…, mesmo sem querer, minha escrita expressa minha experiência (e que minha experiência é contemporânea), minha escrita, como a de qualquer escritora ou escritor, expressa obrigatoriamente e singularmente a experiência contemporânea. Nesse sentido, a resposta é sim: acredito que essa “fragmentação”, essas “interrupções” e esses “deslocamentos” estão entre as melhores formas de expressar a minha experiência contemporânea. Isso dito, saliento que, como qualquer escritora ou escritor que se preze, vivo em busca da forma perfeita para o meu relato por vir. Cada caso é um caso e eu espero, claro, que a forma de Concatenação sirva à História da Literatura.
Há uma tensão constante entre humor e desconforto em Concatenação. Como você constrói esse equilíbrio sem transformar a violência em caricatura?
Em Concatenação, eu quis entre outras coisas revelar as tripas dessa nossa instituição política que não dá a mínima para as vítimas de abuso sexual, principalmente quando estas últimas não são de família abastada. Do fundo das tripas, esforço-me para não negligenciar a seriedade dessas coisas. Nada de minimizar a impunidade dos tiranos, eis o meu credo. Nada de concessões. Ainda assim, um texto é um pacto entre um autor e um leitorado. Quem escreve sabe que a primeira preocupação antes de começar uma novela, um conto ou um romance é: com que roupa eu vou? Quer dizer: que estilo devo dar à ficção sobre violência sexual que estou prestes a escrever para que minha leitora ou meu leitor, a cada frase, a cada parágrafo, sinta vontade de continuar. Ao meu ver, nada melhor que o riso para segurar um leitor. Ora, como prefiro mil vezes zombar de um patrão que de um empregado, minha modalidade é a “sátira”, e não “humor”. Acho que o humorista zomba de si mesmo e dos membros do seu próprio grupo; o satirista, por sua vez, tende a zombar de quem está bem acima dele na escala social. Entre humor e sátira, o teor do riso muda. O detalhe é que minhas personagens nem sempre estão de acordo comigo. Mas, apesar das aparências, isso não é um problema. Pelo contrário: acho que é deixando livre a expressão das minhas personagens que eu evito cair em caricaturas. Vale salientar que no bairro em que cresci, violência é mato. Piada também. Ou seja, não invento nada. Quando penso nos camaradas dos meus tempos de menino, vejo que o cômico nos ajudava a enfrentar o cotidiano sem caricaturar nosso sofrimento. Esse grotesco que em Concatenação eu tento produzir a partir da matéria cômica da vida vem, portanto, calibrado e equilibrado de fábrica.
Muitos personagens parecem presos à memória e à repetição cotidiana. Você vê o livro como uma reflexão sobre exaustão urbana?
Em nenhum momento pensei no termo “exaustão urbana”; acho que não o teria usado; mas concordo com ele. Tem a ver com o que eu disse acima, sobre as situações repetidas do cotidiano. Há efetivamente várias pequenas reflexões sobre isso no romance. Então a resposta é sim.
Sua obra frequentemente mistura prosa narrativa, poesia e reflexão ensaística. Você sente que escreve deliberadamente entre gêneros?
Verdade que há mistura de gêneros em boa parte do que publiquei até agora. Sei que fiz isso deliberadamente em alguns casos, e continuo fazendo. Como faço parte do time dos que acreditam que o texto se impõe ao autor tanto quanto o autor se impõe ao texto, sei também que, em outros casos, a mistura de gêneros, em vez de algo que eu tinha programado, resultou do meu processo de escrita. Aliás, quando percebo que o texto está conduzindo-me para intersecções de gênero, eu aproveito o ensejo e me deleito.
Que autores ou tradições literárias dialogam diretamente com Concatenação?
As tradições literárias eu não saberia designar sem cair em abobrinhas eruditas. Mas é certo que, em termos de forma, Concatenação dialoga diretamente com Samuel Beckett e Thomas Bernhard.
Existe uma dimensão política no livro, mesmo sem discurso explícito. Até que ponto isso é intencional?
É totalmente intencional. Faço também parte do time dos que pensam que Literatura sem dimensão política é não Literatura, mas passatempo.
Como sua experiência como tradutor e leitor de literatura estrangeira influencia sua construção narrativa?
Verdade que li e leio obras literárias muito mais em francês que em português. Nesse sentido, é possível e até provável que minha construção narrativa evoque procedimentos mais “estrangeiros” que brasileiros. Agora, como essa experiência de leitor plurilíngue e de tradutor influencia minha construção narrativa em geral, não sei dizer. Pensarei nisso, e responderei melhor à pergunta em uma próxima entrevista.
Você acredita que a literatura independente brasileira atual tem mais liberdade formal do que o mercado editorial tradicional?
Quando fazemos parte do campo literário, interessamo-nos obviamente pelo que se faz por trás dos grandes holofotes do mercado tradicional. Mas, apesar das propagandas que vemos nas redes sociais virtuais, a tarefa de falar de “literatura independente” é quase impossível pois, por definição, a literatura dita “independente” não tem visibilidade. Aliás, quando olhamos de perto, percebemos que, dadas as proporções do território brasileiro, a categoria “literatura brasileira independente” não passa de uma ilusão de ótica. Eu diria em termos gerais que o primeiro grande risco da categoria “literatura independente” (que acrescentemos ou não “brasileira”, ou “nordestina”, ou “pernambucana”) é o de acharmos que tudo que não faz parte do mercado tradicional é “literatura independente”. Mas nem tudo que é independente é literatura. Por outro lado, se alguém me fala por exemplo de literatura recifense independente, concebo a coisa mais facilmente, ainda que o termo “independente” permaneça incompleto. Incompleto porque, afinal de contas, toda literatura depende de impressão e de circulação: um escritor sabe raramente cuidar dessas coisas e uma editora precisa de dinheiro para fazer isso… Por outro lado, estimo enquanto leitor que em cada mil obras literárias editadas hoje no mundo, somente um inova formalmente (grandes e pequenas editoras misturadas). Por que a média do Brasil seria diferente? Nenhuma razão para isso a priori. Agora, se se trata de saber se a literatura dita “independente” tem mais liberdade formal que a literatura mainstream, a resposta é sim. Resta saber se as novas formas dessa literatura mais “livre” e autodenominada “independente” têm vocação para desestabilizar a ordem que tritura a Literatura.
Serviço
Concatenação
Diogo Santiago
146 paginas
Editora M.inimalismos
R$ 50