México, portas se abriam

Quando chegamos, minha mulher Bia Wouk e eu, ao México em 1982, vindos de Beirute em guerra, a primeira sensação foi a de liberdade para caminhar pelas ruas de fachadas coloniais em torno do Zócalo, em San Angel ou Coyoacán. Com os portos fechados no Líbano, a mudança viria de avião.

No hotel, tentando evitar carne e feijão no café da manhã, experimentamos o que pareciam ser vagens picadas. Eram “chile”, pimenta. Aceno de boas-vindas a uma cultura de cores e sabores fortes.

Um capítulo obrigatório é o das artes plásticas. Bia expôs na Galeria de Arte Mexicano, por onde passaram nomes que marcam a tradição artística do país, como María Izquierdo e Diego Rivera.

Obras destes e outros artistas, era possível admirar na casa de família da atriz e escritora Aline Davidoff, na época casada com o cineasta Arturo Ripstein, amigos desde que ele me procurou pensando filmar conto de Guimarães Rosa. Assistente de Buñuel em O Anjo Exterminador,  frequentava-o. Quando chegaram da Nova Fronteira exemplares de Meu último suspiro, Buñuel pediu-me para encaminhá-los a quem lesse português, fazendo-me a dedicatória num deles.

Nos primeiros dias, o escritor colombiano Álvaro Mutis nos recebeu, com sua mulher Carmen. Mostrou-nos foto de uma mulher nua, de costas, com volumes das figuras de seu amigo Botero: “Mi mamá”, disse. Não conhecendo o humor de Álvaro, nem a foto de Manuel Álvarez Bravo, cheguei a acreditar.

Em sua casa de San Jerónimo, por onde transitavam igrejas rivais, encontrávamos García Márquez com sua mulher Mercedes. Na volta do Nobel, Gabo comentou que, ao Conselho do prêmio, teria sugerido o nome de Drummond, que apenas ele e Álvaro conheciam.

Em nossa casa, o poeta Francisco Cervantes, com olheiras fundas, tomava sozinho uma garrafa de Porto. Álvaro chamava-o de vampiro e dizia que, para garantir o suicídio que ele insinuava, deveria mudar-se para um andar mais alto de seu prédio.

Duas vezes ao ano, quando circulavam menos carros, subíamos ao alto da casa para ver o Popocatépetl. O México já não era “a região mais transparente”.

Toda uma porta se abriu quando Álvaro me apresentou a outro amigo seu, Octavio Paz. 

“Em geral recebo os jovens às quartas-feiras,” disse.

Sentávamo-nos num banco entre estantes. Ele nutria uma simpatia maior pela revolta do que pela revolução. Preocupavam-no a revolução iraniana, a crise centro-americana e a “vingança dos particularismos”. 

Em Tiempo nublado, que escrevia em 1982, responsabiliza o imperialismo norte-americano pelas tiranias na América Latina. Mas o totalitarismo e o sistema de dominação no Leste Europeu deviam ser objeto de crítica ainda mais severa.

Também se interessava pelo Concretismo e suas inspirações em Pound. Mantinha correspondência com Haroldo de Campos sobre a tradução do poema “Blanco”, que veio a ser publicada como “Transblanco”.

Ainda em 1982, no lançamento de Sor Juana Inés de la Cruz o las trampas de la fé, declarava à la Flaubert: “Sor Juana soy yo”.

Na ficção, o México me abriu mais uma porta. Publiquei em Vuelta, com tradução de Francisco Cervantes, um capítulo de meu primeiro romance, Ideias para onde passar o fim do mundo, dois anos antes que este saísse no Brasil. 

Ao mesmo tempo, ouvia oníricas histórias reais. O antropólogo argentino Nestor García Canclini mostrava fotos de curiosos monumentos, como o de um camarão gigante no centro de uma praça. A amiga, cenógrafa e ilustradora María Figueroa, filha do fotógrafo de Buñuel, Gabriel Figueroa, contava que um vendedor arrependido se desculpou pela venda de um armário onde morava um bispo assassinado: “Ele não tem incomodado a senhora com seus passeios noturnos?” 

 

(*) Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de Entre facas, algodão, Homem de papel e outros 6 romances, escreve a série 18 cidades, sobre lugares onde viveu.