Poço Comprido: o engenho dos confederados de 1824

Em setembro de 1824, durante a Confederação do Equador, frei Joaquim do Amor Divino Rabelo Caneca (1779-1825) se hospedou no Engenho Poço Comprido, em Vicência, município da Zona da Mata Norte de Pernambuco. O frade carmelita, líder e mártir do movimento revolucionário que desafiou a centralização do poder político nas mãos do imperador Pedro I, no século XIX, saiu do Recife – reconquistado pelas tropas imperiais –, passou por Goiana e parou em Poço Comprido para discutir formas de resistência. No engenho, ficou decidido que não haveria rendição, a revolta separatista e republicana teria continuidade e os homens ali reunidos iriam compor a Divisão Constitucional da Confederação do Equador.

“Poço Comprido guarda esse episódio muito bonito da Confederação do Equador, movimento que completa 200 anos em 2024”, destaca o historiador e professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, George Cabral. Frei Caneca chegou ao engenho em 21 de setembro e, no dia seguinte, reuniu o grande conselho que aprovou a continuação da luta pela causa da liberdade e a criação de uma nova ordem constitucional no Brasil, sem interferência do Rio de Janeiro, sede do poder imperial, informa George Cabral. “Participaram da reunião em Vicência o governo temporário da Paraíba, tropas desse estado e tropas da Mata Norte de Pernambuco”.

A mobilização dos revolucionários foi registrada pelo religioso, político e jornalista no diário que ele escreveu durante a marcha. O itinerário de frei Caneca do Recife ao Ceará Grande integra um conjunto de obras do carmelita, republicadas em 2000 pela Editora 34 com organização e introdução do historiador Evaldo Cabral de Mello. Poço Comprido, construção do século XVIII que tem sua história entrelaçada com a Confederação do Equador, é o único engenho de cana-de-açúcar tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Pernambuco. Distante 98 quilômetros do Centro do Recife, uma viagem de quase duas horas de carro (PE-74 e BR-408), funciona como museu e está aberto a visitação.

O Museu Poço Comprido ocupa uma área de 4 hectares com pomar, o casarão, a capela dedicada a São João Batista, a fábrica – também chamada de moita, engenho ou casa de purgar, onde a cana era transformada em açúcar – e o auditório Frei Caneca, instalado na antiga vacaria, uma construção mais recente, com cerca de 100 anos. Ainda que não tenha móveis de época para exibição pública na casa-grande, onde moravam os proprietários, a arquitetura dos edifícios testemunha uma parte fundamental da história do Brasil: o poderio econômico da civilização açucareira e o sistema escravocrata, como bem demonstrou o arquiteto Geraldo Gomes no livro Engenho e Arquitetura (Editora Massangana-2005).

Com dois pavimentos e escadas externas de acesso a uma varanda na fachada, o casarão de Poço Comprido tem semelhanças com as casas rurais do Norte de Portugal, de acordo com Geraldo Gomes, falecido em 2021. A localização da vivenda, no ponto mais elevado do terreno, permitia ao senhor de engenho fiscalizar e ter controle das atividades realizadas nas terras sob o seu domínio, declara Joana D’Arc Ribeiro, mais conhecida como Jane, a diretora do museu. “É uma casa rural simples, sem nobreza”, observa. A estrutura da coberta da moita, feita de caibros de madeira roliça e ripas, recebeu elogios do pesquisador, que era considerado o maior estudioso da arquitetura dos engenhos de cana-de-açúcar.

O engenho era de propriedade da família Cavalcanti, de Goiana, município da Mata Norte pernambucana. Na década de 1970, foi vendido à Usina Laranjeiras, que mantém um comodato com a Associação de Filhos e Amigos de Vicência (Afav) para o funcionamento do museu. “Já existia no começo do século XVIII, pois há registro de um batizado na capela em 1732”, afirma Jane. “A produção de açúcar era grande, engenhos da região que não tinham máquinas traziam a cana para moer em Poço Comprido”, relata. A antiga fábrica, erguida na parte baixa do terreno, próximo ao Rio Siriji, pela dependência da água no trabalho de manufatura, precisa de reparos nas paredes. “Estamos tentando captar recursos para a obra”, declara.

A manutenção do museu depende da política cultural nacional, de editais de fomento da cultura. “Somos Ponto de Memória e Ponto de Cultura, a Afav está constantemente inscrevendo projetos em editais e a usina nos ajuda com o pagamento de um zelador”, diz a gestora. A escassez financeira não é impedimento para receber o público, que precisa agendar as visitas previamente (@museupococomprido) e pagar uma taxa social. “O grupo mínimo é de cinco pessoas e cada uma colabora com R$10. Havendo necessidade, recebemos uma quantidade menor, desde que paguem os R$50 do custo da visita, feita com auxílio de mediadores para contar a história do engenho.”

Grupos grandes, a partir de 12 pessoas, podem agendar a visita com almoço, servido no auditório Frei Caneca. O cardápio inclui a refeição principal, duas ou três opções de sucos, duas opções de sobremesas, água e café e custa R$50 por pessoa. “A comida é regional e varia de acordo com a estação. Temos pratos à base de macaxeira, bredo, milho, assim como os sucos de frutas da época”, avisa Jane. No pomar, há pés de mamão, seriguela, pitanga, acerola, jaca, manga, graviola, limão, laranja, sapoti, cajá, jambo, caju, coco, ingá, pitomba, feijão, fava, macaxeira, milho e pimenta. O engenho também aluga espaços para casamentos, aniversários, cerimônias religiosas e produção de books fotográficos.

O pavimento superior da casa-grande, que abrigava a residência, é formado por três salas, cinco quartos e varanda. A moradia é conjugada internamente com a capela por uma passarela, um dos raros exemplares com essa característica que chegaram aos tempos atuais. Há ainda espaços utilizados como despensa no passado, com armários preservados. Num deles, fica a lojinha para comercialização de artesanato local (bolsas e cestos feitos de fibra de bananeira por cozinheiras do museu), rapadura, mel de engenho, camisetas e livros sobre o xaxado. Em paredes e pisos estão visíveis as marcações de acréscimos, ampliações e reformas realizadas ao longo dos séculos, identificadas na última obra de restauração, na primeira década de 2000. Utensílios de cozinha, um forno de pedra, painéis com fotos de engenhos pernambucanos e registros em jornais de fugas de escravos de engenhos da Mata Norte, incluindo Poço Comprido, estão expostos aos visitantes.

Se o tripé de sustentação da civilização do açúcar resistiu ao tempo em Poço Comprido – casarão, moita e capela – , do espaço destinado aos escravizados, a senzala, ainda não foram encontrados vestígios. Seravim era cativo do engenho, mas onde dormia ou se foi açoitado num tronco semelhante ao artefato de tortura instalado defronte da casa-grande, ninguém sabe. Certeza mesmo é que ele fugiu em dezembro de 1834 e um anúncio de boa recompensa pela captura do “cabra de estatura regular, seco de corpo, pouca barba, pernas finas e dedos arrebitados” foi publicado em 28 de fevereiro de 1835, no jornal Diario de Pernambuco.

É intenção do museu procurar vestígios da senzala (alicerces, talvez) com pesquisa arqueológica na propriedade, especificamente na casa de moradia mais antiga da área, em volta de dois pés de baobás listados entre os mais velhos de Pernambuco. Faltam recursos, lamenta Jane. “A localização da senzala nesse trecho é uma suposição a ser confirmada, o tronco de açoite ocupava outro lugar no tempo da escravidão, não ficava na frente da casa-grande como agora, e também não há comprovação de uso para castigos no tronco exposto na entrada do museu”, explica. A Afav, criada em 1999, atua desde então para garantir a preservação do engenho, transformado no Museu Poço Comprido há 20 anos.

Nascida na Mata Norte, a arquiteta e urbanista Vitória Régia Andrade é entusiasta de um roteiro histórico e sentimental pelos engenhos de cana-de-açúcar de Pernambuco. Poço Comprido, que teve a casa-grande e a capela tombadas pelo Iphan em 1962, é um dos mais antigos ainda de pé. Bem-preservado, é o principal destino dessa futura rota que não existe oficialmente.

“A Mata Norte é uma área de grande importância na formação de Pernambuco. Vicência ficava na região de Goiana, que pertencia à Capitania de Itamaracá, os carmelitas têm um convento em Goiana, cidade revolucionária e de agitação política no século XIX, isso justifica frei Caneca fazer reunião em Poço Comprido. A história das rebeliões contra os impostos cobrados por Portugal não é só do Recife, ela vem do interior para a cidade”, afirma Vitória Andrade.