Filme 'Lisbela e o prisioneiro' popularizou obra de Osman Lins

Visto por 3.174.643 pagantes numa época de pico (o ano de 2003) na venda de ingressos dos filmes nacionais da chamada Retomada, Lisbela e o prisioneiro chegou à sua maioridade – 21 aninhos – no momento em que o autor que inspirou esse blockbuster de humor ligeiro tem seu centenário celebrado pela literatura e pelo teatro. Guel Arraes, que assinou a direção do longa, egresso do fenômeno O auto da Compadecida, confessa ter inventado o tanto quanto pôde ao lidar com o texto original, uma comédia encenada originalmente em 1961. Por ela, Osman recebeu o 1º Prêmio no 2º Concurso Nacional de Peças Brasileiras e, logo em sua estreia, teve a chance de vê-la montada no Rio de Janeiro pela Cia. Tônia-Céli-Autran. Os cariocas foram apresentados a Leléu, malandro conquistador que se derrete pela mocinha do título, no Teatro Mesbla, com Paulo Autran no papel. Em 1962, Lisbela é apresentada aos paulistas, numa montagem no Teatro Municipal de São Paulo.

“O filme aproveita basicamente o plot –  muito bom, aliás –  de um homem que deve a vida a outro sem saber que também o jurou de morte. O resto é quase tudo reinventado”, explica Arraes, que contou com seu parceiro habitual, o cineasta Jorge Furtado, na adaptação.

O realizador de Ilha das Flores (1989) já conhecia Avalovara e mergulhou em Lisbela e o prisioneiro ainda no início dos anos 1990, quando Guel adaptou a peça primeiramente para a TV. Foi um especial para o horário de 21h30, das noites de terça da Globo. Giulia Gam e Diogo Villela são os protagonistas dessa versão, exibida pela emissora carioca em 1994.

Lisbela é um texto que adaptamos primeiro para a televisão, depois para o teatro e seguindo para o cinema. Então tem personagens muito bons e ótimos diálogos. É uma visão crítica e apaixonada do Brasil, do homem comum brasileiro”, diz Furtado.

Osman é um grande comediante, pelo pouco que conheço. Escrevia muito bem e era alguém que amava o Brasil. São raros os nossos dramaturgos que conseguem retratar o tipo popular brasileiro. Osman, sem dúvida, é um deles.

Jorge Furtado

Outro multiartista que entrou no bonde de Lisbela... foi o diretor teatral, roteirista, cineasta e compositor João Falcão. “O projeto Lisbela e o prisioneiro começou em 1993, quando eu nem tinha feito nada para a Globo ainda, pois fazia teatro no Recife. Não participei dele, só do filme. Mas esse especial era parte de um projeto que se chamava Brasil Especial, no qual pegávamos autores que faziam obras de comédia na literatura brasileira para a gente adaptar para a televisão. Eu fiz alguns, como O coronel e o lobisomem e o O alienista. O último que a gente fez foi A comédia da vida privada, que acabou virando uma série independente”, lembra Falcão, que assina a música de Lisbela feita para o cinema ao lado de André Moraes.

O CD com a trilha sonora, que ia de Zéu Britto a Los Hermanos, com Caetano Veloso cantando Você não me ensinou a te esquecer virou um hit de vendas. Ganhou inclusive um especial musical na Globo, com palco criado pela cenógrafa Cláudia Alencar, inspirado por uma ideia de “Nordeste pop”, incorporando quadros do artista plástico Maurício Arraes. 

“Foi uma coisa aquela trilha, um escândalo!”, celebra João Falcão. “Tem Caetano Veloso, Elza Soares, tinha um pessoal que aparentemente não tinha nem a ver com esse universo do interior, do regional muito menos... Mas o Osman Lins tinha esse flerte com um realismo mágico que permitia algumas coisas. Tem também a coisa da música sentimental brasileira.” 

Bem antes de Lisbela na televisão ou no cinema sob a gestão de Guel, a TV Cultura produziu e exibiu uma telenovela baseada no romance O fiel e a pedra, lançado por Osman em 1961. Essa adaptação foi levada ao ar 20 anos depois da publicação do livro, de agosto a setembro de 1981, às 21h, numa versão para o audiovisual feita por Jorge Andrade, com direção de Edison Braga. Dos 30 episódios originais, sobraram poucos no acervo da emissora.

“A obra de Osman Lins, um escritor do seu tempo, de um Brasil desenvolvimentista, ainda totalmente desigual, caracteriza-se pelo engajamento como escritor atuante que almeja intervir, a seu modo, com sua arte, na realidade”, explica a crítica de teatro Cláudia Chaves, resenhista do Correio da Manhã. “Graduado em Dramaturgia, ele traz para Lisbela e o prisioneiro as suas características autorais: o Nordeste de sua origem, dos valores populares; os quiproquós das narrativas próximas às da commedia dell’arte; a composição de um real que emerge da realidade cotidiana para uma peça de dramaturgia bem elaborada.”

Antes, em 1976, o nome de Osman Lins figurou nos créditos da TV Globo no Caso especial Quem era Shirley Temple?, com Dina Sfat, Osmar Prado e Paulo José (também na direção). O roteiro era do próprio Osman.
Coautor de fenômenos televisivos como a novela das sete Bom Sucesso, Paulo Halm, que já adaptou dramaturgos como Plínio Marcos (2 Perdidos Numa Noite Suja) é um roteirista que foi influenciado pela escrita de Osman Lins, na noção dele de brasilidade.

“Eu li muito o Osman Lins nos anos 1970... adolescente ainda. Seu romance A rainha dos cárceres da Grécia, com sua pegada metalinguística, foi algo que me impressionou muito na época e acho que vem daí esse meu fascínio pela metalinguagem, do filme dentro do filme, da novela dentro da novela e, claro, do romance dentro do romance que eu procuro trazer pros meus trabalhos, sempre que possível”, diz Halm, que dirigiu o longa Histórias de amor duram apenas 90 minutos (2009). “O uso da referência e da citação como elementos da  dramaturgia vem dele. Li também o Avalovara e Nove, novena. Nessa mesma época, assisti aos casos especiais que o Osman escreveu para a TV Globo, Uma ilha no espaço e Quem era Shirley Temple?. Tem um terceiro, Marcha fúnebre, que não lembro ter visto. Curiosamente, por muito tempo, nunca mais ouvi falar do Osman Lins, nem encontrava ninguém que lembrasse dele, meio que o condenando a ser um autor dos anos 1970 ou um autor de minha adolescência. Foi assim até o Guel Arraes filmar Lisbela e o prisioneiro. Ali eu me senti menos ‘órfão’.”

Um artigo acadêmico da UFPE, escrito por Ermelinda Maria Araújo Ferreira e Adriano Siqueira Ramalho Portela, mapeia a produção que Osman fez para a televisão. “Fascinado pela proposta, Osman Lins não apenas cedeu seus originais para as adaptações: assumiu ele mesmo o desafio de aprender as técnicas de expressão do meio audiovisual, redigindo de próprio punho os seus episódios, e gabando-se, inclusive, de ter sido ‘o primeiro dos autores adaptados a produzir um texto diretamente pensado para a televisão’”, escrevem Ermelinda e Portela. “Apreciador  confesso  da  sétima  arte,  não  é  de  duvidar  que  Osman  Lins,  em  sua empreitada sabotadora da indústria  cultural,  também  tenha  recorrido  a algumas técnicas do filme noir – que retrata uma sociedade na qual o sonho americano  de  sucesso  é  invertido  e  a  alienação e o fracasso são os tons dominantes – para compor esse breve e tenso conto policial enigmático.”

De acordo com a dupla, a produção  de  textos  curtos  para  o  suporte  televisivo  do  Caso  Especial  obrigou o autor a um novo desafio: abandonar a sofisticação estilística criada aos moldes  da  escrita  oulipiana  francesa,  que teria inspirado a coletânea de narrativas Nove, novena (1966) e o romance Avalovara  (1973).  “A  compreensão  de  que o ‘hermetismo’ desses procedimentos  não  corresponderia  ao  horizonte  de  expectativas  da  recepção  massificada  prevista para o incipiente teleteatro nacional teria levado o escritor a explorar outros caminhos; mais próximos, talvez, das soluções encontradas pelo mestre da literatura de mistério e suspense, Edgar Allan  Poe”, escrevem Ermelinda e Portela.

Imortal da Academia Brasileira de Letras, o baiano Antônio Torres, autor de Essa terra, foi redator de publicidade e conhecia bem os meandros dos reclames de TV quando conheceu Osman Lins. 

“Tivemos uns dois ou três encontros. Eu me lembro de que fui ao lançamento de Avalovara, na Livraria Cultura, em São Paulo. Nosso último contato foi no terraço de um hotel, em Natal, num coquetel ao final de um encontro de escritores nordestinos. Ao me ver, ele disse: ‘Nós nunca conversamos direito. Vamos fazer isso agora?’. Aí chegou o João Ubaldo, com um bêbado que queria entrar na conversa. Em seguida começou a chover e nos dispersamos. Coisa de um mês depois eu iria ler a notícia da sua morte na capa do Jornal do Brasil. Imagine o choque.”

Roteiristas de peso do cinema e da TV no país encaram a prosa de Osman como um farol para iluminar os conflitos da realidade brasileira. É o caso de Marçal Aquino, ganhador do Jabuti por O amor e outros objetos pontiagudos, responsável por roteiros de cults da telona (O invasor) e de êxitos de audiência na telinha (Força tarefa).

“Antes de mais nada, Osman tinha uma consciência única do papel social de todo escritor. Para além do que se propunha a contar, ele dava muita importância à forma na hora de narrar. Lembro de ter ficado bem impactado no contato com sua obra. Nove, novena foi o primeiro livro dele que conheci. Acho que obras como A rainha dos cárceres da Grécia e, sobretudo, Avalovara permanecem como grandes desafios aos leitores que não se conformam com a facilitação que acomete boa parte da ficção palatável que é produzida hoje.