Entrevista André Heráclio: Derrotas que valem mais

Passados 200 anos desde a ocorrência da Confederação do Equador, o movimento, frequentemente tido como uma mobilização meramente regional, tem na efeméride uma chance de ser redescoberto e ter a sua verdadeira dimensão reconhecida. Uma comissão temporária do Senado atualmente desenvolve um plano com duração de um ano para a realização de ações alusivas ao evento. Estudioso da insurreição, o diplomata e historiador André Heráclio do Rêgo é um dos nomes que enxergam a necessidade de se discutir mais a Confederação do Equador, sobretudo em âmbito nacional.

Doutor em Estudos Portugueses, Brasileiros e da África Lusófona e membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), ele comenta nesta entrevista o impacto da Confederação para revoluções subsequentes e o seu legado para o Brasil de hoje, além de comentar a dimensão política e histórica de Frei Caneca.

Qual é a importância que a Confederação do Equador tem para o Brasil, dois séculos após o seu acontecimento?
A Confederação do Equador, ao contrário do que diz uma certa historiografia, não constituiu um movimento separatista. O seu líder, Manuel de Carvalho Paes de Andrade, dirigiu manifestos tanto aos pernambucanos quanto aos brasileiros. A ideia era conclamar todo o país. Quanto ao seu título, Confederação do Equador, tal denominação encontra paralelos em outros exemplos. No âmbito nacional, houve escritos da época que consagraram o título Império do Equador como sinônimo de Império do Brasil. No âmbito internacional, a correlação é com o Império do Meio e o do Sol Nascente. A principal dimensão da Confederação, a meu ver, é o seu caráter de defesa da Constituição. Nesse sentido, trata-se da primeira revolução constitucionalista brasileira, mais de 100 anos antes do dos paulistas, em 1932. E, se foi separatista, não o foi mais do que esta última.

Se houvesse um panteão ou um ranking dos heróis ou mártires nacionais, você colocaria Frei Caneca no mesmo nível de Tiradentes, por exemplo? Por quê?
Claro que sim. Acima de Tiradentes, eu diria. Tiradentes teve a sua imagem endeusada – a palavra é esta mesma, pois sua figura foi transformada da de um simples alferes para a de um mártir de cabelos longos e barba, coincidentemente como o Cristo – durante a Primeira República que, como se sabe, era dominada pelos paulistas e mineiros. Caneca era um constitucionalista, um erudito, participou de duas revoluções, e teve uma morte muito mais gloriosa. Como nenhum carrasco se habilitou a enforcá-lo, morreu fuzilado.

Oliveira Lima destacou a revolução de 1817 como a mais digna de receber o nome de revolução. Você, especialista em Oliveira Lima, colocaria 1824 no mesmo nível de 1817?
No mesmo nível talvez não, pois 1817 dispunha de uma plêiade de nomes de que 1824 não dispunha: o padre Roma, o padre João Ribeiro, e por aí vai. Mas não resta dúvida de que 1824 tem certa continuidade com 1817, inclusive no aspecto constitucionalista.

Por que fracassaram as chamadas revoluções libertárias de Pernambuco?
Gilberto Freyre fala, em um dos seus artigos, do valor dos fracassos das revoluções, não só de Pernambuco. Nesse sentido, são derrotas que valeram talvez mais do que vitórias. Mas, respondendo: porque a sociedade e o resto do país talvez ainda não estivessem amadurecidos para tais projetos. Mais uma vez o pioneirismo pernambucano, pelo qual muito se pagou.

Teria algo a dizer sobre a participação das mulheres, afrodescendentes e indígenas na Confederação do Equador?
Infelizmente, não. As revoluções naquela época se tinham o seu componente revolucionário, tinham também o aspecto conservador, pois não incluíam a todos. Mas isso não é apanágio de Pernambuco: considere-se que a democracia grega se limitava aos homens livres, excluía mulheres, escravizados e estrangeiros, e ainda assim é considerada modelar. 

Apesar do pioneirismo, a Confederação do Equador é menos lembrada como movimento constitucionalista do que a Revolução de 1932. Na sua avaliação, a que se deve essa menor popularidade/certo desconhecimento, sobretudo fora do Estado, do movimento iniciado em Pernambuco?
É um pouco a mesma resposta à questão Tiradentes/Frei Caneca. Porque o eixo do poder se deslocou para o centro-sul, e desde a Primeira República, pelo menos, predomina a narrativa histórica dessa região. Que influencia os próprios pernambucanos. Não é à toa que o 21 de abril é feriado nacional há décadas, e o 6 de março somente há poucos anos foi consagrado Data Magna de Pernambuco.

A Comissão Temporária de comemoração aos 200 anos da Confederação do Equador criada pelo Senado aprovou um plano de trabalho com duração de 365 dias. Qual a importância de se comemorar o bicentenário, em âmbito nacional?
É justamente o de caracterizar a Confederação não como um fenômeno local ou regional, mas como um movimento de dimensão nacional, pois teve influência em todo o país, e incluiu representantes de não só pernambucanos, mas de outras províncias.

Qual seria o principal legado da Confederação do Equador para Pernambuco, na sua avaliação?
O de ser a continuidade de 1817, e a antecipação da República que viria em 1889. E, acima de tudo, o de ser a primeira revolução constitucionalista do Brasil.

A Confederação do Equador envolveu, em menor ou maior grau, outras províncias do Norte (hoje Nordeste). O Ceará teve uma adesão importante. Como o senhor analisa a Confederação além das fronteiras de Pernambuco? O movimento recebe a mesma valorização, nos outros estados, que Pernambuco dá à Confederação do Equador?
A Confederação teve seus mártires, não somente em Pernambuco, mas também no Ceará, e sua repercussão se estendeu pelo menos até o Pará. A Confederação do Equador tem duas datas comemorativas: o 2 de julho em Pernambuco e o 26 de agosto no Ceará, a data da morte de Tristão de Alencar Araripe, filho de Bárbara de Alencar. É preciso notar que existe uma grande continuidade entre a região do Araripe pernambucano e o Cariri cearense. Miguel Arraes de Alencar, que era parente do nosso personagem, que o diga.