Aos cem anos de Franz, a eternidade de Kafka

Menos de 41 anos, e um lugar reservado na eternidade. A vida de Franz Kafka é objeto de escrutínio constante desde a sua morte no 3 de junho de 1924, de uma das tuberculoses mais famosas da história. 

Nasceu em 3 de julho de 1883 em Praga. Judeu, filho de Julie Löwy e Hermann Kafka. Família próspera da burguesia, com o pai dedicado à vida comercial. Franz foi o filho mais velho, mas não o primogênito, porque dois irmãos faleceram na infância. Já ali se pode detectar alguma raiz dos seus incômodos que ainda estavam por vir – medos, relação complicada com o pai, um peso exagerado na alma. Filho e pais ficaram distantes. O pai, duro, autoritário, imponente, e a mãe sempre dependendo das flutuações temperamentais do marido, e preocupada pelo futuro de filho que se dedicava à sua vida interna, espiritual, e mostrava pouca capacidade ou vontade de conquistar o mundo prático. 

Judeu de nascimento, Franz Kafka não era religioso à maneira tradicional e ficou longe do rito e da comunidade. Portanto, a sua formação foi alemã, na escola primária e logo no Altstädter Staatsgymnasium, uma escola secundária exigente e de alto nível. Mas a escola, onde Franz foi bom aluno, era para ele uma instituição fria e autoritária. O filho da burguesia confortável simpatiza com ao socialismo e depois com a vertente socialista do movimento Sionista. Judeu, alemão, burguês, socialista, introvertido, e com uma vida sexual tumultuosa; espiritual, mas não religioso; jovial, mas isolado. Já na sua juventude Franz Kafka é um complexo de duplicidades.

Após dúvidas, e submetido a pressões dos pais, Franz tenta a carreira universitária de Química, mas desiste rapidamente e opta por Direito. Em 1902, na Universidade Carolina, o estudante conhece Max Brod, que será o seu grande amigo, e eventualmente o seu executor testamentário. Filosofia, literatura, arte unem os dois amigos. A importância de Brod na vida de Kafka é imensa. Apoio, ajuda material, e o primeiro grande fã do escritor, a pessoa que acreditava no seu gênio, quando ninguém sabia quem era Franz Kafka. 

No ano de 1906, Kafka obtém o doutoramento em Direito, e logo depois começa a trabalhar numa seguradora, Assicurazioni Generali, em Praga. Em 1908, muda de trabalho, para ter mais tempo livre e poder se dedicar à literatura. Kafka trabalha no Instituto de Seguros de Acidentes da Bohemia. Fica trabalhando ali nove anos, tratando de casos de querelas causadas por acidentes, danos pessoais sofridos e demais dramas humanos que são traduzidos em probabilidades, cifras e eventuais pagamentos. 

Em 1917, Kafka, já tuberculoso, aposenta-se, por razões de saúde. Agora já não tem que limitar a sua atividade literária às horas noturnas. Ainda assim, doença e dificuldades nas suas relações românticas são obstáculos que marcam os anos que lhe restam de vida. 

Três relações com mulheres. Felice Bauer, um noivado que Kafka rompe duas vezes. A relação posterior com Milena Jesenská também não é feliz. Kafka altera entre sanatórios e períodos em Praga, até que, em 1923, muda o centro da sua vida a Berlim. Conhece o último amor da sua vida, Dora Diamant e o casal se estabelece na capital alemã. Já não há tempo. Um ano depois, Kafka morre em Praga, após um último tempo ali, compartilhado com Dora.

Ao falecer, Kafka é apreciado por poucos. A sua fama é póstuma, impulsionada pelo incansável Max Brod, que promove publicações e traduções ao inglês e ao francês. Não viu o regime de Hitler se apoderar da Alemanha, regime que exterminou as suas três irmãs. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, Kafka é (re)descoberto no mundo da sua língua, a língua alemã. Morto Franz, 21 anos depois começa a vida eterna de Kafka.