O escritor argentino Jorge Luis Borges achava que “todos os eventos ocorridos no universo, por ínfimos que fossem, concorriam necessariamente para os demais eventos que lhes sucediam”. Obras como as de Shakespeare, Dante e Tolstói surgiram graças à contribuição de milhares de narradores com menor relevância ou anônimos, laborando de modo ininterrupto em todas as latitudes do nosso planeta, construindo rios comunicantes de saberes. Sem os narradores filósofos, que o roteirista de cinema e escritor francês Jean-Claude Carrière sabiamente chama de “mentirosos”, faltaria alicerce para o edifício da cultura ocidental e oriental, em que brilham no andar mais elevado, lá no topo, esses gênios da humanidade.
Graças ao raciocínio borgiano, tornou-se possível a existência de dois livros: O círculo dos mentirosos e Contos filosóficos do mundo inteiro. Neles, Carrière se permitiu o uso dos bens de cultura, acessou um patrimônio de narrativas de milhares de anos, como se fosse um legado de sua memória pessoal, afirmando num dos prefácios: “A antiguidade destas histórias é extremamente variável e a origem geralmente desconhecida, pois elas constituem um bem que um povo rouba do outro”.
Ao longo de 25 anos, Carrière ouviu, leu, selecionou e por fim recontou histórias do mundo inteiro. No primeiro volume, intitulado O círculo dos mentirosos, defendeu os motivos para ter se dedicado a essa tarefa, explicando por que deixou de lado os mitos, os relatos fantásticos e as fábulas morais, preferindo “histórias elaboradas, frutos de reflexão, feitas para ajudar a viver, eventualmente a morrer, concebidas e contadas em sociedades organizadas e consolidadas, que se acreditam duráveis e, por assim dizer, civilizadas”.
Conhecido por seu trabalho de roteirista em seis dos mais importantes filmes do cineasta espanhol Luis Buñuel, e por iguais colaborações com os diretores Andrzej Wadja, Milos Forman e Volker Schlöndorff, ao lermos os contos filosóficos pensamos tratar-se de um outro Carrière. Nada neles lembra o surrealismo de A bela da tarde, O fantasma da liberdade ou O discreto charme da burguesia. O Carrière afirma que o prazer antigo e universal do conto está mais próximo do especialista em cultura, filosofia e religiões da Índia. Nele reconhecemos o parceiro de Peter Brook – diretor inglês de cinema e teatro, radicado na França –, com quem dramatizou o épico indiano Mahabharata, para um dos mais importantes espetáculos teatrais do século XX.
Nos dois livros não há tentativas de falsificação, o leitor nunca deixa de saber que é um intelectual do ocidente quem reconta as histórias, jamais imagina tratar-se de um velho árabe, um brâmane, um feiticeiro ameríndio ou um mestre zen.
Ao falar sobre as narrativas como bens que povos roubam de outros, Carrière toca na relação de culturas dominantes e dominadas. A história do homem é uma sucessão de guerras e rapinagens. Inglaterra, França, Espanha e Alemanha, para citar apenas esses conquistadores expansionistas, se apoderaram de tesouros das civilizações egípcia, indiana, chinesa, grega e árabe, atulhando seus museus com o que melhor produziram esses povos. Refiro-me a bens perecíveis, que desaparecem com o fogo, os maremotos e as guerras: pinturas, esculturas, cerâmicas, joias, tapeçarias, sarcófagos, palácios e templos. A apropriação feita por Carrière é de um saber transmitido de forma oral ou escrita, através de livros, que podem ser reproduzidos infinitamente. Zeloso, ele pôs um foco de luz sobre histórias de todos os povos, sem tirar-lhes o encantamento e o mistério.