Nada se passa por acaso na vida do senhor Shandong, meu pasteleiro, embora ele pense ao contrário. Meu pasteleiro acredita em excesso no acaso. Talvez por isso se mantenha tão indiferente ao mundo. No meio da tarde, gosto de provar um de seus pastéis de sopro, que falam de recheios que nunca consigo saborear. Não importa, são crocantes e deliciosos.
Certa tarde, parei na pastelaria do senhor Dong – como os fregueses o chamam – para comer um pastel e terminar a leitura de O castelo, de Franz Kafka. Nada como ler um livro denso e desanimador, desanimador, mas belo, em meio à zoeira vaga de uma pastelaria, com o vapor do óleo de fritura empapando as páginas. Ali você se abstrai do mundo, só ali é possível entrar em um livro bizarro como o de Kafka.
Nessa tarde chuvosa, a pastelaria está vazia e o senhor Shandong, sem ter o que fazer, se acomoda ao meu lado no balcão. Sempre foi um homem atormentado e melancólico, que parece prestes a chorar, mas nunca chora. Pergunto o que se passa com ele. “Gosto muito de minha pastelaria, é a minha segunda casa. Mas a verdade é que aqui também me sinto um prisioneiro.”
O senhor Dong sofre com a angústia, mas a angústia é algo que também não se pode explicar, ou definir. Vamos dizer de forma mais simples: o senhor Shandong vive devastado por uma tristeza crônica, uma tristeza sem causa, que se derrama pelos fogões de sua loja, se infiltra nos fornos e talvez se esconda até nos pastéis.
Volto ao Castelo, que tento ler, mas o senhor Dong não me deixa. Para quem não o conhece: O castelo conta a história de K., um homem que luta para se apresentar a um grande senhor, um conde, a quem servirá como agrimensor. Tenta chegar ao senhor conde, mas não consegue – tudo o impede de ter acesso ao castelo. As quase 500 páginas do livro contam sua aventura infeliz e inútil.
O senhor Shandong se sente preso no interior de sua loja, o agrimensor K. se sente preso no exterior das muralhas. Haverá alguma diferença assim tão grande entre os dois? Haverá para eles – para fora, ou para dentro – alguma chance de libertação? O cheiro da gordura, que escorre pelas paredes, me incomoda. Começo a entender um pouco o desejo que o senhor Dong tem de fugir. De escapar do seu destino gorduroso e lamentável – mesmo sendo um destino que ele tanto ama.
Volto a abrir o romance de Kafka. Na página 299, Olga – uma mulher com quem K se envolve – me abre uma porta: “Na verdade, consta que todos nós pertencemos ao castelo, que não existe distância e, portanto, nada a transpor”. O castelo – a prisão –, Olga nos alerta, não está fora, ou dentro. O castelo está em toda parte. Também a pastelaria do senhor Shandong se alastra por todo o Cotolengo e se infiltra na periferia de Curitiba. Na Vila Oficina, ou na Cidade Industrial, é o mesmo vento fumacento que sopra. Vai além da periferia: talvez seja a borda do mundo.
“Tudo vem do castelo”, insiste Olga, lembrando a K. que não há o que ultrapassar, ou vencer, mas também não há para onde fugir. O castelo é esse sentimento duvidoso – essa angústia – de pertencer a um mundo que não compreendemos e que, embora imenso, infinito, parece nunca nos bastar. Resta saber o que fazer de nós dentro dele.
“Sua pastelaria é muito acolhedora”, consolo o senhor Dong. “Por isso gosto de ler em seu balcão.” Meu pasteleiro admite que sempre se espanta comigo. Por que fujo para um lugar do qual ele gostaria de fugir? Por que me sinto acolhido em um lugar em que ele sufoca? “Há uma gosma que se derrama por todos os lados”, tento lhe explicar em palavras simples. “Como se fosse uma panela de água em ebulição que alguém derrama sobre um tapete.” Não é mais uma questão de fugir ou de entrar. É uma questão de ser. A questão é: o que faço, sendo quem sou, e exatamente aqui?