A literatura que saiu do frio

Por mais remota e isolada, a Escandinávia tem exercido uma influência cada vez maior na cultura global. É muito improvável que você tenha vivido até agora sem ter cruzado com alguma obra ou artista vindos dos países nórdicos. Qualquer um com acesso ao streaming com certeza já se deparou com uma das muitas séries policiais suecas, norueguesas, dinamarquesas e islandesas. Você pode nunca ter escutado, mas já ouviu falar da Björk. E, com certeza, já deve ter lido ou visto em alguma estante de livros um calhamaço chamado O mundo de Sofia. Para não falar no escritor sueco Stieg Larsson, autor da série de livros Millennium, sucesso de vendas que inspirou adaptações audiovisuais igualmente bem-sucedidas. São alguns exemplos que mostram o peso da produção artística desses países.

Talvez seja excessivo falar em um boom da literatura nórdica, mas o fato é que nos últimos anos o número de livros traduzidos dos países da Escandinávia vem crescendo significativamente. A Noruega é um bom exemplo. “Acho que podemos dizer que a literatura norueguesa está vivendo uma era de ouro nos últimos 20 anos. Nossos livros têm sido traduzidos para muitas línguas diferentes e ganhado prêmios internacionais, sendo o mais importante deles, é claro, o Nobel do Jon Fosse, no ano passado”, diz Andrine Pollen, consultora da Norla, agência de fomento à tradução de literatura norueguesa.

Pollen acredita que, na história mais recente, o escritor que abriu as portas para os autores noruegueses mundo afora foi Jostein Gaarder, autor de O mundo de Sofia, um hit dos anos 1990. Naquela época, eram poucos as traduções diretas do norueguês e o mais comum era que os livros do idioma fossem traduzido para o alemão e, a partir daí, para o inglês e para outras línguas. Hoje, conta Pollen, o norueguês conta com tradutores diretos que traduzem para mais de 60 línguas.

A razão para o aumento do interesse nas literaturas nórdicas tem a ver com condições materiais que contribuem para o desenvolvimento de um ecossistema forte de escritores locais e de tradutores e editores de fora. Assim como a Noruega, todos os países da Escandinávia possuem agências como a Norla, que bancam traduções em outros países e oferecem uma série de incentivos a tradutores e editoras. Além disso, em maior ou menor grau, todos contam com políticas de Estado de incentivo a escritores e editoras locais, como programas de compras de exemplares de livros de autores contemporâneos para as bibliotecas nacionais e bolsas que garantem aos escritores condições mínimas para exercerem seus ofícios.

Para Pollen, esses fatores impactam diretamente a produção da literatura norueguesa. “A possibilidade de ter livros comprados pelo governo estimula os escritores a experimentarem mais e a se arriscar em diferentes gêneros”, diz. É uma explicação para a diversidade estética que vem surgindo no país. Por razões culturais e climáticas, uma grande tendência da literatura norueguesa são livros que tratam de questões familiares e são marcados pela exploração da interioridade. “Passamos muito tempo dentro de casa durante o inverno”, diz Pollen.

Essa estética da interioridade também é apontada como uma marca definidora dessas literaturas por tradutores experientes das línguas nórdicas. “Tenho a impressão de que muitas obras de autores noruegueses, suecos e dinamarqueses - aqueles que traduzo - são uma jornada de exploração do ‘eu’ que narra a história. A história enquanto enredo muitas vezes funciona mais como um pano de fundo para essa exploração do que propriamente como foco narrativo”, afirma Guilherme da Silva Braga. Luciano Dutra, tradutor de islandês, sueco, dinamarquês, feroês e norueguês, também aponta como característica forte das literaturas nórdicas uma verve lírica: “Em linhas gerais posso afirmar que há uma poética muito presente nos romances de autores nórdicos contemporâneos, o que talvez se explique em boa medida pelo fato singelo de a poesia ter sido o trampolim de entrada na profissão de escritores”, diz Dutra.

Leitores de Karl Ove Knausgård, Jon Fosse, Solvej Balle, Linda Boström Knausgård, Fríða Ísberg, Hanne Ørstavik, para ficar em alguns, certamente percebem nesses autores algumas dessas qualidades. Todos esses autores já estão ao alcance do público brasileiro ou estarão em breve. E ainda há muito a descobrir e traduzir, como as obras que exploram temáticas sociais e perspectivas historicamente marginalizadas que têm emergido nesses países, representadas por autores como Maria Skaranger Navarro e Zeshan Shakar, na Noruega, Athena Farrokhzad e Jonas Hassen Khemiri na Suécia, Adrian Perera na Finlândia e Yahya Hassan na Dinamarca.