Famosa por ter inspirado J.K. Rolling na concepção do universo do bruxo Harry Potter, a centenária Livraria Lello continua a tirar coelhos da cartola na magia de se estabelecer como incontornável ponto turístico do Porto e um dos epicentros da literatura e cultura pop mundial. A nova bruxaria dos portuenses é a aquisição da biblioteca da cantora britânica Amy Winehouse.
Os 230 livros da “diva pop” fazem agora companhia às 42 cartas escritas por outro ícone da música mundial, o norte-americano Bob Dylan, prêmio Nobel de Literatura em 2016, redigidas a próprio punho na década de 1950, ainda antes de ele compor “Like a rolling stone”, adquiridas pela Lello em 2022 num leilão por 500 mil euros (cerca de 3.1 milhões de reais).
Ao contrário do acervo epistolar de Dylan, a Livraria Lello não revelou a quantia desembolsada pelo acervo de Winehouse, limitando-se a dizer que foram adquiridos por um valor “acima do mercado” das obras, o que seria óbvio, já que são testemunhas da relação íntima da autora com os livros, a maioria deles lidos durante a adolescência em Londres.
Naquela época da virada do milênio, a jovem Winehouse aquecia-se do frio londrino acompanhada de uma xícara fumegante ou durante um quente banho de banheira, como comprova as manchas de água e café nas bordas das páginas das peças de teatro, romances e novelas gráficas, o carinho a alguns deles “carimbados” num afetivo beijo de batom da autora de “Love is a losing game”.
Outros livros da biblioteca de Winehouse trazem juvenis corações desenhados nas folhas de rostos, e notas e comentários escritos à mão pela cantora por entre as linhas dos textos.
Para além de abrir as portas à intimidade de uma estrela, a biblioteca de Amy Winehouse ajuda a montar o quebra-cabeça da formação de um ícone, revelando um outro lado de uma personalidade normalmente associada a comportamentos autodestrutivos e que culminaria na morte precoce por abuso excessivo de álcool, aos 27 anos, em sua casa em Camden Town.
A biblioteca pessoal de Amy, exposta desde março na Sala Gemma da Livraria Lello, aponta para uma adolescente interessada em encontrar nas páginas dos livros as respostas a uma existência inquietante. A primeira companhia, logo aos 12 anos, foi a do nova-iorquino J.D. Salinger, com O apanhador no campo do centeio (The catcher in the rye).
O livro, o tortuoso e reflexivo percurso de um jovem de uma família rica de Nova York ao retornar para casa dos pais após ter sido expulso de um renomado colégio interno por mau desempenho, impressionou tanto a pré-adolescente Winehouse, que Salinger tornou-se um dos seus autores preferidos, de quem leu toda bibliografia.
Tanto que o conselho na última frase da opus-magna de J.D. Salinger, “nunca conte nada a ninguém, se você o fizer, começará a sentir falta de todos”, parece ter servido à própria Amy Winehouse. Temendo ser criticada pelos amigos por sua paixão pelos livros, ela costumava mantê-los longe dos olhos para não ser “cancelada” pelos pares pouco afeitos à literatura.
Segundo o irmão mais velho da cantora, Alex Winehouse, a caçula não tinha problema em manter espalhados pela casa os romances água com açúcar da escritora e atriz norte-americana Jackie Collins, enquanto a literatura a sério era devidamente camuflada do escrutínio alheio. “A Amy escondia sua coleção de Dostoiévski num armário”, conta.
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