Uma voz cheia de dinheiro

O poder, a ilusão e o Sonho Americano em "O grande Gatsby", de Scott Fitzgerald

Leonardo DiCaprio interpreta o milionário Jay Gatsby na adaptação para o cinema dirigida por Baz Luhrmann, que estreou em 2013
Leonardo DiCaprio interpreta o milionário Jay Gatsby na adaptação para o cinema dirigida por Baz Luhrmann, que estreou em 2013

O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, publicado pela primeira vez em 1925, teve uma recepção tímida. O contrário do que desejava o autor, pois com o romance seu desejo era ser reconhecido amplamente, por aquela narrativa que nos oferece um retrato vivo da sociedade americana.

Quando escreveu o Gatsby, beirava os 29 anos de idade. Para ele e a esposa, Zelda Sayre (escritora e dançarina), a vida devia sempre ser luxo e desmesura. Consequência: viviam endividados. As farras sem-fim na Riviera Francesa inspiraram as descrições das festas na mansão de Gatsby.

Ao luxo acrescente-se o luto de expectativas em que vivia o casal. Os sonhos e as promessas nunca cumpridos. Havia outro luto em Fitzgerald: dos ideais românticos desmoronados na sociedade moderna. Em meio ao vazio moral e ao pragmatismo sem freios. Este sentimento permeia Gatsby, principalmente na figura de Jay Gatsby e sua busca idealizada por Daisy Buchanan, “a jovem dourada”, “uma voz cheia de dinheiro”.

O adjetivo “grande” cabia não só ao personagem, era a definição do livro e do autor. Fitzgerald, como todos os grandes escritores, tinha consciência disso.

Zelda, a quem Scott dedica o Gatsby, chegou a afirmar, em cartas, o quanto ficou impressionada com os primeiros rascunhos do marido: “Scott está criando algo mais profundo, mais grandioso, do que qualquer outra coisa que ele tenha feito antes.” Assim está em Zelda: uma biografia, de Nancy Milford, publicada em 1970.

Envolvido em dívidas e excessos, F. Scott Fitzgerald havia sido atacado pela convicção dos gênios, enquanto escrevia Gatsby. Revelou isso em cartas: “Quero algo que seja perfeito, algo que resista ao tempo, algo que mostre quem eu realmente sou como escritor”.

Não por acaso, Jay Gatsby é parcial e psicologicamente baseado no próprio Fitzgerald, alguém com ambições grandiosas, lutando para ser aceito socialmente. Gatsby representa a ilusão de que o dinheiro pode conquistar amor e aceitação. A ilusão é uma luz verde como a esperança, outra futilidade. Pelo menos para o universo excessivo criado por Fitzgerald nesse romance.

A escrita d’O grande Gatsby está ligada às tendências da modernidade literária, que dominavam a literatura ocidental no seu tempo, e se alastrou depois.

Fragmentação e ruptura das narrativas tradicionais do realismo são duas das características, que se veem bem nítidas em Gatsby. Na complexidade da narração, na visão crítica da experiência humana na sociedade. Quanto à forma: uma história contada sob múltiplos focos narrativos.

Nesse romance de Fitzgerald, são pontos de vista marcantes, ambíguos, com os quais o narrador Nick Carraway mostra a vida de Jay Gatsby (mas também a de Tom Buchanan, a de Daisy Buchanan, e a dele próprio) com uma visão poderosa, filtrada pelas lentes da sociedade e do dinheiro. O foco, difuso, encontra nitidez na busca pelo Sonho Americano, o materialismo e a superfluidade, razão para a vida dessas almas serem corrompidas de forma avassaladora. Tudo “montado” como cinema da vida real. Sim, o “olhar cinematográfico”, com descrições que sugerem enquadramentos e cortes bem peculiares. Com descrições da extravagância nas festas na mansão, onde confetes caem “como chuva no chão dançante”. As luzes são brilhantes, a música é sempre alta, as saladas coloridas e as carnes frias nos banquetes.

É algo rico em emoção e suspense crescentes. É um close-up emocional. “Gatsby olhava para ela com uma intensidade quase palpável.”

Há vários exemplos, como aquela cena onde estão Tom e Gatsby, no Plaza Hotel.

Essas cenas aparecem em seu ambiente mais natural, o cinema, muitas delas fielmente, nas adaptações d’O grande Gatsby, de Jack Clayton (1974) tanto quanto em Baz Luhrmann (2013), sempre de forma deslumbrante, em diálogos embaraçosos ou embaraçados pela chuva, pela raiva, pelo amor, pelo desespero dos personagens.

Sem contar a cena mais trágica, contada tal como no romance, quadro a quadro no cinema, simplesmente porque Fitzgerald a compôs tão primorosamente que não me surpreenderia se você a visse no teatro, em comerciais, em games, ali onde a morte, esverdeada, cumpre seu traçado diante do mundo indiferente.

Se vemos o cinema como natural ao Gatsby, o próprio Cinema o percebeu logo cedo. Desde a primeira adaptação muda e livre de Herbert Brenon, em 1926.

Embora Fitzgerald compartilhasse algumas preocupações modernistas e gostasse da experimentação, ele não rompeu com a tradição literária. Preferiu estruturas mais acessíveis, mesmo numa prosa emaranhada e poética (marcada pelo gosto algo hiperbólico do narrador, Nick Carraway).

Um romance não tem obrigação de promover premonições. Ele pode tratar de algumas horas ou minutos de um dia, de um século, de eras pretéritas ou vindouras. Mas não é um telescópio armado.

O grande Gatsby Fitzgerald reflete os Loucos Anos Vinte. Seu romance trata de iluminar seu tempo presente. Mas, transcorrido um século de sua publicação, em um tempo mais louco ainda, Gatsby termina por sugerir relações com os dias atuais. Aponta tensões históricas e sociais tanto do seu tempo quanto do nosso. O poder, a ilusão, a ganância, a decadência moral, o Sonho Americano e as transformações das estruturas políticas e culturais nos Estados Unidos e no mundo.

Em 1922, ano no qual O grande Gatsby é ambientado, o presidente dos Estados Unidos era Warren G. Harding (1865–1923). Seu breve mandato (1921-1923) é comumente associado a escândalos e corrupção. Harding é um precursor de Trump na criação de um supergabinete administrativo onde estariam as melhores mentes dos Estados Unidos. O resultado, em 1921, foi a ascensão de gangues na política, sob o ideal de um retorno da vida americana à “normalidade”. O presidente Harding incentivava uma economia do consumo sem freios e a especulação. Tudo isso se vê nas festas opulentas descritas no romance. A era de Harding foi um prelúdio para o crash de 1929, assim como as festas de Gatsby simbolizam a futilidade de um estilo de vida baseado em excessos.

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