I
Esta é a geleira, terrível, imóvel.
Na altura dos olhos as muralhas de mármore de um palácio colossal
Metade branco com longas sombras azuis metade cinza ocres cores violentas...
Vinte e nove montanhas acima de quatro mil metros,
Um mundo distante, expressionismo abstrato, a 360º.
O corpo, reduzido a um ponto preto diminuto,
visto pelo olho de um corvo alpino no ar,
Inclina-se
à beira do abismo violeta, em transe:
Abaixo das muralhas reluzentes, o colosso exibe
sua paisagem lunar e monstruosa, palimpsesto de eras,
escadarias derruídas, resquícios de terremotos,
glaciares como línguas gigantes de gelo e ao redor
mais ruínas, frágil ossatura da terra, crevas abissais,
cinzas cicatrizes, fendas fatais, desmoronamentos—
um tsunami congelado que vira pilhas de rochas,
um bulldozer gigante de gelo, o horror
aparentemente imóvel que arrasta tudo em seu caminho.
Eis as ruínas caóticas de um palácio inóspito, inumano,
sendo desconstruído, como um grandioso pátio de obras abandonado,
Enquanto,
em suas encostas,
escaras de musgos e coroas de lariços em fogo
escalam e já se alastram montanha acima,
entre berçários de pinheiros novos.
Eis o Gornergrat — reino além da mente,
no limiar de nossa limitada existência terrestre;
Gigantesco anfiteatro de gelo e rocha, sem atores,
Um grande mundo imóvel, distante e mudo, a não ser
pelo vento violento em suas ravinas vertiginosas,
por uma avalanche, invisível, do lado italiano,
pelo grito esquálido de outro corvo alpino
(um grito só metade seu),
acrobata do azul, rindo de nós.
Aqui o céu afunda,
Rocha paira.
Resta ao olhar, insaciável,
apenas o terror da vastidão.
(E, pela primeira vez,
E pela última vez,
Entendes o Sublime,
Encontras a paz).
II
Dufuorspitzei, Lyskamm, Castor, Pollux, Breithorn, Matterhorn...
Esses deuses não merecem desaparecer.
Fantasmas de monarcas decadentes,
deuses esquecidos, deuses banidos,
pela última vez admirando, contando as horas
com lágrimas nos lagos safiras, o horror
de seu belo reino devastado, contemplando
seu esplendor saqueado, templo condenado
pelo Sol diabólico que nele revela, dia a dia,
sua suprema, última solidão.
Benvindos ao universo outrora eterno das coisas,
E adeus!
A mesma força secreta que governa a mente
no seu “Mont Blanc”, Shelley, os condenou.
CORO:
Oh, magos do crepúsculo!
Deuses de gelo que sucumbem ao nosso calor!
Matamos o Eterno, matamos o Sublime!
Zaratustra ri nas alturas!
III
Nenhum som ecoa além do vento.
Um mundo além da mente, ainda majestoso,
Indiferente
ao nosso humano espanto.
De seus abismos nos encaram com desdém.
No entanto, nada ousa mover-se além
da mente, inquieta, escalando
onde nenhum pensamento deveria subir,
tronos de gelo reluzente,
Onde pensamento algum
consegue respirar.
CORO:
Nas espinhas mais altas dos picos,
espirais de gelo, vendavais de neve.
Cada inverno traz menos neve do que leva;
Cada verão consome o que restava.
Sob o sol, de suas arestas, paredes de branco cegante,
As montanhas vomitam seus últimos troféus românticos:
Cadáveres alpinistas.
O universo perpétuo das coisas agora se derrete
nesse mundo, a olhos vistos, a uma velocidade
de quarenta mil litros por segundo.
CORO:
Ver os deuses se dissiparem como as nuvens,
Sua aniquilação, não ainda a nossa,
Deixam-nos órfãos, Ó Terra:
Eis o verdadeiro crepúsculo dos deuses, Gornergrat:
Suas neves nunca mais serão eternas, não mais:
Conseguimos transformá-los em meros mortais.