Escritor baiano volta ao Correntes d’Escritas, festival que o lançou em Portugal, para contar a história de Coração sem medo, o ponto-final da trilogia iniciada em Torto Arado.
Quando em 2026 Itamar Vieira Júnior voltou a cruzar as portas do Cine-Teatro Garrett, uma joia do século XIX no coração da pacata Póvoa do Varzim, sua fama de escritor já o precedia, por ter vencido os principais prémios em língua portuguesa - Leya, Jabuti e Oceanos - e ainda pela indicação ao Booker Prize, sem falar dos milhões de livros vendidos em dezenas de países.
Muito diferente da primeira participação no festival literário Correntes d’Escritas, em 2019, quando o escritor brasileiro veio lançar o seu primeiro livro, Torto Arado.
“Era tudo muito novo para mim, todas aquelas pessoas à espera de me ouvir falar. Não posso esconder a emoção de retornar onde tudo começou”, revelou Itamar Vieira Júnior diante da plateia lotada à espera do lançamento do mais recente livro, Corações sem medo, também um retorno ao tema central de Torto Arado, continuado em Salvar o fogo, e que, segundo o autor, põe um ponto-final na trilogia.
Coração sem medo, porém, apresenta um desvio cênico da narrativa, ao derivar a ação do sertão baiano para a capital Salvador, embora a personagem central, Rita Preta, mantenha raízes com os protagonistas de Torto Arado, entre elas a matriarca Salustiana Chapéu Grande.
“Enquanto Torto arado simbolizava o amor das pessoas à terra, no meu caso, também pela natureza da minha atividade profissional (como geógrafo do Incra), Coração sem medo explora as questões do desterro, daqueles que são arrancados à força da sua terra”, explica Itamar.
Seguindo o roteiro migratório de muitos brasileiros do interior rumo aos grandes centros urbanos, Rita chega a Salvador aos 12 anos para trabalhar, primeiro como empregada doméstica, e em seguida como caixa de um supermercado. Anos depois, já mãe de três filhos, cada um deles com pais distintos, enfrenta a massacrante rotina da escala 6 por 1 apoiada pela rede de outras mulheres com realidade semelhante, sem abrir mão do escape de uma furtiva noitada.
O percurso de Rita altera subitamente com o “desaparecimento” do mais velho e ainda adolescente Cid, após uma discussão geracional típica entre mãe e filho. A culpa inicial rapidamente dissipa-se e transforma-se em preocupação, depois desespero, ao perceber que Cid pode ter sido mais uma vítima da violência desmedida da polícia. Rita, porém, cumpre sua jornada sem medo no coração.
“Infelizmente, desaparecer de forma misteriosa faz parte da rotina de jovens pobres e pretos das periferias no Brasil. E Rita se confronta com essa realidade, percorrendo hospitais, delegacias, o necrotério, como tantas outras mães brasileiras”, explica Itamar Vieira Júnior
O baiano, porém, logo percebeu que a sina de mães, de mulheres, em conflito com o destino trágico dos filhos transcende o cenário brasileiro. “É na verdade um tema que atravessa a humanidade, contado e recontado várias vezes desde a mitologia grega.”
Lançado pela Todavia no Brasil, Coração sem medo é publicado em Portugal pela respeitada D. Quixote, uma das 12 chancelas do Grupo Leya, e deve seguir o sucesso de crítica e vendas de Torto Arado e Salvar o fogo, não só entre a grande comunidade brasileira no país, mas entre os leitores portugueses seduzidos pela estranheza da narrativa ao mesmo tempo realista e fantasiosa do autor.
O festival Correntes d’Escrita, o mais antigo de Portugal, foi só a primeira escala de Itamar Vieira Júnior em Portugal, seguida de três encontros em dias consecutivos na capital Lisboa.