Poeta Armando de Freitas Filho morre aos 84 anos

Uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, o poeta carioca estava internado com problemas respiratórios.

Admirador de Bandeira, Drummond, João Cabral e Gullar, Armando Freitas Filho foi vencedor dos prêmios Jabuti e Alphonsus de Guimaraes, entre outros.
Admirador de Bandeira, Drummond, João Cabral e Gullar, Armando Freitas Filho foi vencedor dos prêmios Jabuti e Alphonsus de Guimaraes, entre outros.

Uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, o poeta carioca Armando Freitas Filho morreu nesta quinta-feira, aos 84 anos, em decorrência de problemas respiratórios. De acordo com o site G1, ele estava internado na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul, há uma semana. O velório ocorre nesta sexta (26/9), no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Deixa viúva Cristina Barros Barreto, organizadora do livro Profissão: poeta: perfil, poemas, entrevista, e um casal de filhos, Carlos e Maria.

Armando Freitas Filho publicou 16 livros de poesia. Restou inédito, ainda, Respiro, que a Companhia das Letras programou para lançar este ano. Ao comemorar 40 anos de poesia, ele publicou, em 2003, Máquina de escrever — poesia reunida e revista (1963–2003), onde comemora 40 anos de carreira. Restam ainda 20 anos de poesia a ser coligida e reunida, além dos inéditos que pode ter deixado na gaveta,

O poeta conquistou o primeiro prêmio em 1986 - o Jabuti, por 3x4. Ganharia depois, por duas vezes, o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional (em 2000, por Fio terra; e em 2014, por Dever); o Prêmio Alceu Amoroso Lima, pelo conjunto da obra, em 2014; o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio Rio de Literatura com o livro Rol, em 2016. Nesse mesmo ano, foi lançado o documentário Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície, dirigido por Walter Carvalho.

Seu último lançamento foi a coletânea de textos Só prosa, de 2022. Freitas Filho foi, ainda, o organizador da obra da poeta e amiga Ana Cristina César (1952-1983).

Embora muito próximo da geração da Poesia Marginal do Rio de Janeiro, ele não se filiou à corrente alguma nem cristalizou-se em uma forma de escrita. Como notou o crítico Silviano Santiago, ainda em 1985, ao escrever o prefácio de 3x4: “O poeta pede para que não o procuremos mais ali no lugar onde o líamos, mas aqui neste livro onde vê, bem-humoradamente, os seus leitores contumazes”.

Armando sempre estava “a desviar-se por um novo caminho”, evitava cair na armadilha de ser prisioneiro de si mesmo e do seu estilo e negociava essa posição também com o próprio leitor. Buscava, enfim, ser um poeta singular.  “[...Sou]  um poeta que não tem heterônimos; que não tem, porque não acreditaria na autonomia deles. Sou filho único, incrédulo, incapaz dessas fantasias”, disse em entrevista a Cristina Barros Barreto.

Mais adianta setencia: “Pertenço a família dos escritores que vivem do seu próprio fígado, principalmente. Escrevo não por desejo, mas por destino, misturando pulsão e impulso, cálculo e atraso. (...) O lugar que consegui, acredito, metendo os pés pelas mãos, literalmente, é o que se abre -  a cotoveladas - entre a sensação e o sentido. É um lugar apertado, promíscuo. Vida e poesia vêm juntos, na mesma colher, ao que parece, para mim. Não obstante, escrevi, há anos, esse verso ambíguo: 'a poesia acaba com a vida'. É uma sentença proferida por uma língua bífida, terrível, língua de serpente. "

Armando Freitas Filho era conhecido pela sua admiração por Carlos Drummond de Andrade,  sua maior influência. Também estão no rol daqueles que reverenciavam João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Ferreira Gullar.

A dicção poética dialoga com esses nomes consagrados. Nos seus versos estão lá os vestígios, as pistas, a homenagem, mas não a camisa de força. Há também a ironia, um riso de canto de boca e o jogo do acaso, como há a construção e suas lógicas verbais. Sua “gagueira biológica”, a voz cortada, também talha a composição, abre-se à autoironia, presente tanto na poesia quanto nas entrevistas. “Talvez por ser gago, gosto de repetir-me a fim de ver se conserta o que saiu titubeante ou incompleto”.

Freitas Filho aposentou-se como assessor no gabinete da presidência da Funarte. Foi pesquisador na  pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa e na Fundação Biblioteca Nacional, secretário da Câmara de Artes no Conselho Federal de Cultura e assessor do Instituto Nacional do Livro, no Rio de Janeiro.

POEMAS DE ARMANDO FREITAS FILHO

SENTENÇAS

Esta lembrança toda feita de lanças
cravada, em uníssono, no alvo do corpo.

Estas vozes, tão mudas, que calam
aqui dentro, qualquer esforço meu.

Este novelo de avessos no começo
de mim, com seu fio de silêncio.

Este sol que busca a janela da manhã
que não se abre no casarão da noite.

Esta ferida que escreve e repete
com sangue, meu nome, e se derrama.

Este céu fundo de esmalte, azul e vão
sem vitrais, sem as cortinas do vento.

Este lugar vazio que me habita e veste
com suas roupas de sombra e rasgão.

Esta vida espessa abandonada no espaço
que não se resolve, dissolve-se e passa.

PARA CRISTINA, LEITORA DE PROUST

Proust mal lido, ou de ouvido
por fim me chega certo, pinçado
por sua leitura detida, em francês
num piscar de olhos mais rápida
quando trazido por quem conhece
para o sabor da nossa língua
o esmero daquele que descreveu
a cada folha, todas as suas nervuras
na frase serpentina que percorre
sem abrir mão de nenhum volteio
os sete volumes do tempo perdido
mas constantemente lembrado, pois
te atravessam, e, através de você
na sua tradução, que se superpõe
às outras, se transfere até a mim.

ROSA E LISPECTOR

Desabrocharam no mesmo tempo.
Algo em comum na peripécia
da aparência, das vestimentas
bem cortadas, mas na essência
se encontravam sem aparatos
embora escrevessem distantes
diferentes: ele para a literatura
ela para ele, para você, para qualquer.
Partiam da mesma base, ambos
sensitivos, místicos, misteriosos magos.
Se reuniram no medo, na morte:
prevista, calculada, aos poucos.

SEM ACESSÓRIOS NEM SOM

Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato.