Em tempos em que a literatura infantil busca cada vez mais dialogar com questões de identidade, diferença e aceitação, O Cabelo Mutante da Rapunzel (Ciranda Cultural) surge como uma releitura de um dos contos de fadas mais conhecidos do Ocidente. A obra parte da figura clássica de Rapunzel, eternizada por suas longas tranças, para subverter expectativas e transformar o cabelo da personagem em um elemento imprevisível, capaz de mudar constantemente de forma, textura e comportamento.
Segundo os autores, o cabelo assume na história um papel simbólico. Sua natureza mutante funciona como metáfora das transformações vividas durante o crescimento, da descoberta de si mesmo e das dificuldades de lidar com aquilo que foge aos padrões estabelecidos. A cada nova mudança, Rapunzel precisa aprender a conviver com o inesperado, desenvolvendo autonomia e confiança.
O livro dialoga com uma tendência contemporânea da literatura infantil que procura revisitar personagens clássicos sob novas perspectivas. Se a Rapunzel dos irmãos Grimm era marcada pelo confinamento físico em uma torre, a protagonista desta versão enfrenta outro tipo de aprisionamento: a expectativa de que seu cabelo e, por consequência, ela própria, se comporte da maneira que os outros desejam.

Na história, voltada para pré-adolescentes e adolescentes, o cabelo mutante gera situações inesperadas, aproximando a leitura da imaginação infantil. Ela também se distancia da lógica tradicional do "príncipe salvador". O foco está menos no resgate romântico e mais na capacidade da própria personagem de compreender e aceitar suas singularidades.
Como muitas outras obras voltadas para esse público, O Cabelo Mutante da Rapunzel propõe uma conversa sobre mudanças, diferenças e liberdade de ser quem se é. Com linguagem acessível e forte apelo visual, com ilustrações de Nat Grego, o livro oferece aos jovens leitores uma aventura diferente. E faz um convite para enxergar aquilo que muitas vezes parece estranho ou fora do padrão como uma fonte de riqueza e criatividade.
Em entrevista ao site da Pernambuco, os autores Daniela Pinotti e Marcelo Maluf comentam sobre o trabalho produzido a quatro mãos. Confira.

Esse livro é voltado para adolescentes. Mistura contos de fadas, faz referências aos mangás e aos filmes trash, com os monstros gigantes invadindo a cidade. Em que gênero ele se enquadra?
Marcelo: Eu diria que o livro é voltado para pré-adolescentes, adolescentes e para leitores de todas as idades. Acho que podemos dizer que se trata de um livro de terror cômico infantojuvenil com pitadas de nonsense e cultura pop.
Como nasceu a ideia de transformar o cabelo de Rapunzel em um elemento "mutante"?
Daniela: É interessante pensar que, na história original, o cabelo é mais importante que a própria Rapunzel. Sempre se fala mais das tranças de Rapunzel do que dela mesma. E, como pensamos em uma história que misturasse humor com terror, nos perguntamos: e se o cabelo da Rapunzel ganhasse vida própria? A partir dessa pergunta, vieram todos os desdobramentos para que a história ficasse em pé, ou os cabelos. Além de muito gel, um alienígena invejoso - afinal, todos sabem que alienígenas são carecas - e um cabeleireiro cheio de estilo.
O que mais os atraiu na personagem Rapunzel para construir essa releitura?
Marcelo: Rapunzel é uma das personagens mais populares dos contos de fadas. Há muitas versões de sua história, o que foi um grande desafio para nós. Como escrever uma subversão do conto sem cair no mais do mesmo? É claro que esse desafio foi estimulante. Daí para frente, mergulhamos e lemos todas as versões de Rapunzel, assim como vimos todos os filmes e animações a respeito de sua história. Nosso processo criativo sempre envolve muita pesquisa primeiro, e depois nos sentamos para escrever.
A obra fala sobre aceitação das diferenças. Como vocês enxergam esse debate no universo infantil atual?
Marcelo: Aceitar as diferenças é, ou deveria ser, uma condição humana essencial. Na literatura infantil ou não, esse é um tema muito presente na ficção moderna e contemporânea. No nosso caso, o tema nasceu de dentro da história. Ou seja, não escrevemos a partir do tema, pois correríamos o risco de deixar a história com um tom didático, o que não era o nosso objetivo. A história, o prazer da leitura e a diversão são muito importantes para nós ao escrever nossos livros; o tema sempre vem depois, de maneira natural. E é claro que a aceitação das diferenças desde sempre foi e é urgente para a literatura e para a vida.
De que maneira a história incentiva as crianças a lidarem com aquilo que as torna únicas?
Daniela: Em primeiro lugar, todos somos seres únicos. E muitas vezes deixamos que nossa autenticidade vá embora quando temos o outro como parâmetro daquilo que deveríamos ser. A verdade é que nós já somos seres únicos. Na nossa história, o tema é abordado tanto de forma simbólica na passagem de Rapunzel pela floresta das vaidades como de forma concreta e cotidiana pelo grupo das três crianças, formado por Yoko, Kenji e o garoto careca, no modo único de ser e viver suas histórias.
Que tipo de conversa vocês esperam provocar entre crianças, pais e educadores?
Daniela: Podemos estimular uma conversa empática e crítica sobre padrões de beleza, e respeito às diferenças. Os monstros que crescem em nossas cabeças, os medos, as angústias e o anseio por agradar aos outros podem ser vistos com mais leveza. E podem ser vencidos quando reconhecemos que não precisamos ser iguais a ninguém.
O que os contos de fadas clássicos ainda têm a oferecer aos leitores do século XXI?
Daniela: Os contos de fadas falam sobre o que nos constitui, sobre nossos dilemas, medos, sonhos e desejos. No século XXI, nossas questões como seres humanos neste planeta ainda são as mesmas. Nada mais ancestral e atual do que os contos tradicionais. O simbólico nunca se desgasta com o tempo. Somente ganha novas camadas de sentidos e significados.
Em sua opinião, por que as releituras de contos tradicionais têm conquistado tanto espaço na literatura contemporânea?
Marcelo: Acho que não é de hoje que as releituras dos contos de fadas, assim como das histórias tradicionais de diversas culturas e tradições, são matéria-prima para a literatura. As histórias tradicionais são uma fonte de sabedoria popular. Recontar é uma forma de manter vivos os primeiros contadores de histórias, assim como é um processo de autoconhecimento. Essas histórias são tão potentes que atravessaram gerações e se mantiveram vivas. Elas continuam dizendo o que tinham para dizer. Como dizia Italo Calvino: “E penso que seja isso: os contos de fadas são verdadeiros.”
O cabelo, que nos contos tradicionais costuma simbolizar beleza e poder, ganha novos significados nesta obra. Quais?
Marcelo: Também falamos de beleza e poder, mas, de alguma maneira, dizemos que esse poder e essa beleza, que são a raiz da vaidade, podem não ser necessariamente algo bom a se almejar. Se não tomarmos cuidado, eles podem sair do controle, que é o que acontece na história. São muitas as formas de beleza, e a nossa sociedade e as redes sociais exaltam um padrão de beleza, assim como exaltam o poder. Nós quisemos questionar esses conceitos e mostrar o quanto eles podem destruir a nossa autenticidade.
Serviço
O cabelo mutante da Rapunzel
Daniela Pinotti e Marcelo Maluf
144 páginas
Ciranda Cultural
R$ 39,90