A Academia Brasileira de Letras celebra os 90 anos do escritor Ignácio de Loyola Brandão. Ocupante da cadeira 11, eleito em 2019, o imortal participa nesta terça-feira, às 16h, do ciclo “Meio século de Literatura Brasileira”, com coordenação da acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira. “Escrevo para romper a solidão, tentar entender o mundo e eu mesmo”, afirmou Loyola Brandão, ao site da ABL.
O encontro será transmitido pelo canal da ABL no YouTube neste link.
Nascido em Araraquara (SP) em 31 de julho de 1936, Loyola Brandão iniciou a carreira como jornalista, aos 16 anos, com uma crítica de cinema sobre Rodolfo Valentino, publicada na Folha Ferroviária, de sua cidade, antes de se dedicar à literatura. Trabalhou nas redações do jornal Última Hora e das revistas Realidade, Planeta, Cláudia e Setenta. Escrevia críticas de cinema, reportagens, entrevistas.
O ritmo das redações e os processos cinematográficos influenciaram o seu estilo fragmentário, imagético, veloz. O olhar jornalístico e sua inquietação política levaram à criação de um mundo distópico, urbano, contemporâneo, presentes em obras como Não verás país nenhum (1981) e Zero (1974).
A vida intensa de repórter em São Paulo, permeando os mais diversos ambientes sociais e convivendo com a sombra pesada da ditadura militar e da alienação de uma mídia conivente com o regime opressor está presente em Bebel que a cidade comeu, romance no qual a metrópole aparece como organismo que engole sonhos de liberdade, identidades e corpos.
Lançado na Itália e censurado no Brasil, Zero foi romance o consagrou, com sua violência brutal, a paranoia e o absurdo. A gênese do livro foram as matérias que eram censuradas e ele começou a guardar, instintivamente, em uma gaveta, de acordo o artigo dos pesquisadores Moroni de Almeida Vidal e Julio Cesar Vieira no volume 16 da revista Mosaico (FGV), em 2024.
O professor e crítico literário Antonio Candido foi um dos primeiros a chamar a atenção para o “realismo feroz” da literatura de Loyola Brandão, após a leitura de Zero. Para a pesquisadora Gabriela Kvacek Betella afirma que o livro reivindica/ ao desmontar as narrativas oficiais da ditadura e expor a lógica opressiva do estado.
Em Não verás país nenhum (1981), o escritor antecipa o colapso ambiental que estamos vivendo e a hiperurbanização. Visto hoje como uma “distopia ecológica”, o romance ainda traz o traço autoritário do controle estatal - algo que soou como ameaça ressente, com o 8 de janeiro de 1922. Em O beijo não vem da boca (1985), por sua vez, Loyola desloca a crítica para o campo das relações humanas, explorando abertamente a evolução da sexualidade por meio de um protagonista em crise, que busca decifrar o significado do amor e da masculinidade. Um mundo em crise este também presente em O homem que violentou o muro (1989), um relato do período em que viveu em Berlim em 1982 e 1983, no auge da guerra fria, quando a Alemanha estava dividida pelo Muro de Berlim, um lado capitalista (Ocidental) e o outro socialista (Oriental).
Tento estreado em 1965, com o livro Depois do Sol, um livro de contos da noite paulistana, nos anos 1960, povoada por garotas de programa, marginais, manequins, atrizes, boxeurs, Ignacio de Loyola Brandão tem mais de quarenta obras publicadas, entre romances, contos, crônicas, biografias, livros de viagem es infantojuvenis. Conquistou quatro prêmios Jabuti com as obras: O homem que odiava a segunda-feira (categoria Contos e Crônicas, 2000), O menino que vendia palavras (categoria Infantil e Livro do Ano, 2008) e Os olhos cegos dos cavalos (categoria Juvenil, 2015), tendo sio ainda a Personalidade do Ano de 2021. Pelo conjunto da obra, o escritor ganhou também o Prêmio Machado de Assis, da ABL.
>> Leia reportagem do jornalista Marcelo Abreu sobre os 40 anos de publicação de Zero no site da revista Continente.