João Cabral ilustrou com cores e formas da poesia Aniki Bóbó

Aiki Bóbó é o título de um filme do realizador português Manoel de Oliveira (1908-2015). Sua estreia no longa de ficção, de 1942. Mas, em 1958, no Recife, tornou-se poesia e desenho. A partir de uma publicação de apenas 30 exemplares, d’O Gráfico Amador. Um trabalho em parceria do artista Aloisio Magalhães (1927-1982) e o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

Ao contrário do que se esperaria, não foi Aloisio quem ilustrou o texto de Cabral, e, sim, o contrário. Assim está no colofão da obra: “Aniki Bóbó, de Aloisio Magalhães, ilustrado com texto de João Cabral de Melo Neto”.

A diagramação também é curiosa. Os versos – em tipografia de grande tamanho – estão dispostos como prosa. Pelas rimas e o ritmo é fácil perceber-se sua disposição em quartetos, forma estrófica tão característica de Cabral, assim:

Aniki tinha de seu duas cores,
o azul e o encarnado,
como outros têm na vida
um burro e um cavalo.

Não eram o mesmo as duas cores
para Aniki destemido:
eram na sua vida
um amigo e um inimigo.

O azul era seu colchão de molas,
líquidas como as do mar.
Azul também eram as suas
muitas lâminas de barbear.

Era muito curiosa
sua rara coleção,
pois quando vistas de perto
eram vermelhas por antecipação.

3
Do alto de seu azul
Aniki via tudo encarnado.
Por isso se mudou dos seus pagos:
não conseguiu desinfetá-los.

Veio para o país de todas as cores,
senão do azul e do encarnado.
Mas o vermelhão que vedes
é a lâmina suja de seu trabalho.

4
Quando Aniki viu o verde,
disse que tinha grande prática,
e pôs-se a desembrulhar
sua linda coleção de lâminas.

Limpou o país dos sociólogos,
trazendo suas giletes,
cujo país é um esqueleto
com nádegas obesas e verdes.

Nota-se aí a recorrência obsessiva, ou as “ideias fixas” do poeta. Seja na menção a “lâminas”, seja na crítica ao seu primo, o sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987). A este vai homenagear no futuro no curto poema sobre Casa-grande & senzala. Porém, nas décadas de 1940 e 1950, era ainda de modo quase sarcástico que se referia a ele. Há menções veladas em O cão sem plumas, O Rio e em Morte e vida severina.

A “linda coleção de lâminas” remete a Uma faca só lâmina. A faca de ponta foi por muito tempo o símbolo do pernambucano ou da pernambucanidade mais aguerrida ou agressiva. Poder-se-ia até dizer que, são, além da faca de ponta, as armas brancas em geral, signo fálico do patriarcado e da guerra (vide o episódio famoso do Leão Coroado). Deste modo se expressa Cabral:

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado)

Pasmado? Sim. Pasmado é o nome de uma povoação (entre Igarassu e Goiana) famosa pela qualidade de suas facas. Aparece com destaque logo no começo do romance O matuto, de Franklin Távora:

“Pasmado é uma velha povoação, outr’ora aldeia de índios, duas léguas ao norte de Igarassu, na estrada de Goiana. É célebre por seus ferreiros, ou mais especialmente pelas facas de ponta que estes fabricam, as quais passam pelas melhores de Pernambuco onde têm estendida e tradicional nomeada. Não há terra que se não distinga por usança, defeito, qualidade ou particularidade local, que vem a ser o seu como traço característico, a sua feição dominante. Quem passa por Tejipió, na estrada de Jaboatão, encontra a cada canto tocadores de viola que vêm alegres, e pé no mato, pé no caminho. Dos casebres do Barro o que logo se mostra aos olhos do viandante são mulheres metediças, com as cabeças cobertas com flores, os cabeções arrendados e decotados, os seios quase de fora. Costumes dos povoados onde ainda não tiveram grande entrada o trabalho e a instrução.

Passando-se por Goiana ouve-se daqui uma trompa, dali um baixo, adiante um pistom, além um trombone, uma clarineta, uma flauta, um assobio, uma harmonia ou uma melodia qualquer, e não se vê sala nem corredor que não tenha nas paredes uma, duas ou três ordens de gaiolas com passarinhos cantadores e chilreadores. Há aí o instinto músico da Bohemia. Quem atravessa Pasmado pela primeira vez, tem a ilusão de que todas as arapongas da mata próxima estão ali a soltar seus estrídulos acentos. Mas logo vê homens tisnados batendo com o martelo sobre a bigorna, foles assopradores, carvões ardentes e flamejantes. Então a ilusão muda. O que parece é que todas as forjas de Vulcano foram transportadas para aquele imenso laboratório de instrumentos mais destruidores do que conservadores da vida e do sossego alheio.

Neste particular, o de ser largo e opulento mercado de armas malfazejas, talvez Pasmado só possa contar em todo o império brasileiro uma rival – a corte do sobredito império, na qual a navalha do capoeira disputa a primazia, em gênero, número e caso, à faca do matuto do norte. A corte e a província neste ponto cortam-se bem. Uma não tem que falar da outra. No que Pasmado se parece com todos os velhos povos, é em ter casas esburacadas; entulhos e matos pelo meio das ruas; aqui uma baixa, ali um barreiro, onde, de inverno, coaxam os sapos dia e noite, respondendo à vozeria desentoada dos seus semelhantes que moram nas moitas formadas por dentro dos largos, sem licença nem proibição da municipalidade. A rua mais pública e principal da povoação é aquela por onde corre a própria estrada. Perto ficam os olhos-d’água nativa onde os moradores vão prover-se da de que precisam, quando não aparam, por sua comodidade, como costumam, em potes e gamelas a que cai das biqueiras da casa durante as chuvas. O certo é que, ou indo buscá-la nas fontes ou aparando-a na porta da casa, não curtem sede os moradores de Pasmado dias e noites, ainda de verão, como curte a pobreza desta esplêndida e orgulhosa cidade – primeira capital da América do Sul”.

Mário Hélio é editor das revistas Pernambuco e Continente