De leitor a editor, de editor a escritor, de escritor a curador de um novo festival literário. Dos principais arquétipos do mundo editorial, em 20 anos de atividade Rui Couceiro tem passeado pelos mais importantes, o último deles talvez o mais desafiador, o de fazer na sua cidade natal, o Porto, um festival à altura de sua tradição no cenário literário de Portugal.
“O Porto é por natureza uma cidade literária, onde nasceram e viveram muitos dos mais importantes escritores portugueses, como Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade, uma cidade de paisagem, poética, romanesca, dramática, incluindo as pessoas, pois os portuenses são quase arquétipos literários”, explica.
Nasce assim o Babell, o primeiro festival literário do Porto, organizado pela Fundação Lello, da mítica livraria de mesmo nome, um dos pontos incontornáveis na cidade aos amantes da literatura em todo o mundo. Durante 24 e 30 de junho, passarão pelo evento nomes de peso como a Nobel Olga Tokarczuk, além de Salman Rushdie, Margaret Atwood e Byung-Chul Han. “Será o festival com o melhor cartaz do mundo”, aposta.
A conversa com o responsável pelo mais novo festival literário português curiosamente aconteceu durante a realização do mais antigo deles, o Correntes d’Escritas, realizado há 26 anos na balneária e charmosa Póvoa do Varzim, quase na fronteira com a Espanha, onde Rui Couceiro durante poucas horas voltou a exercitar o seu lado escritor.
Diferente do Correntes d’Escritas, que praticamente concentra todas as atividades no imponente Cine-Teatro Garrett - batizado em homenagem a um dos tantos escritores portuenses, Almeida Garrett - o Babell vai se espalhar pelas ruas do Porto, em eventos onde o público terá acesso às conversas mediante uma única condição: comprar um livro em um das 70 livrarias da cidade.
“O Porto tem 70 livrarias, um número respeitável, embora já tivesse tido mais. A Lello que organiza o evento é uma delas, mas o Babell pertence à cidade e quem quiser ir ao festival basta comprar um livro, qualquer que seja, de qualquer valor, em qualquer uma delas. A compra gera um código que vai ser trocado pelo ingresso a uma das conversas”, explica.
A ambição do novo festival em parear o cenário literário português com a capital Lisboa foi o leitmotiv para Rui Couceiro deixar para trás a respeitável posição de editor no maior grupo editoral de Portugal, a joint-venture entre a Porto Editora - e suas duas dezenas de chancelas - e o grupo Bertrand, que além de publishing house agrega 58 livrarias pelo país, incluindo a mais antiga em atividade no mundo, de portas abertas no Chiado em Lisboa desde 1732.
“Como se diz no Brasil, eu vim das divisões de base do grupo Porto Editora. Ninguém esperava que eu saísse, nem eu próprio, nunca tinha pensado nem tentado sair. Recebi a proposta numa quinta-feira e no outro dia demiti-me”, explica o portuense de 42 anos. “Foi uma proposta tão importante, que nem me questionei.”
A nova casa do editor, escritor e comissário - como os portugueses chamam os curadores - da Babell também tem suas pretensões no xadrez literário português. Além da Lello - a mais famosa livraria do país, fundada há 120 anos e que recebe milhões de visitantes todos os anos - o grupo recentemente adquiriu o mítico Teatro Sá da Bandeira no Porto e reformou o belíssimo Mosteiro de Leça do Balio, erguido no século XVI, para instalar a sua sede. O Babell é, portanto, mais uma peça a se mover no tabuleiro.
A livraria Lello é uma casa espetacular, liderada por gente de grande visão, que pensou no Babell como um contributo para o território através da cultura. O portuense é um povo que não se contenta com nada além do melhor e era estranho haver festivais literários em todo o território português e não no Porto”, conta Rui Couceiro.
Além das duas décadas de atividade no ramo editorial, pesou para o convite a experiência de Rui Couceiro em realizar eventos literários no Porto, e não só. Desde 2011, é o responsável por um ciclo de conversas, o Porto de Encontro, que todos os meses recebe escritores na cidade. “É uma espécie de festival literário mensal”, explica.
Entre 2015 e 2016, Rui Couceiro cruzou o país com a Viagem Literária, levando sessões com autores às capitais de 16 dos 18 distritos - o equivalente brasileiro aos estados - de Portugal, incluindo a Ilha da Madeira e os Açores. “Deixamos propositalmente Lisboa e o Porto de fora, pois já contavam com muita oferta cultural”, justifica.
Desde 2022, o editor e agora comissário, nascido na Rua Camões no bairro de Cedofeita no Porto, divide a rotina com a tarefa de escritor. A estreia veio com Baiôa sem data para morrer, finalista do Pen Club e vencedor do prémio Manuel de Boaventura, publicado no Brasil pela Editora Globo, seguido com Morro da Pena Ventosa, de 2024.
O Brasil, por sinal, especialmente Pernambuco, não é estranho a Rui Couceiro. O autor já esteve acompanhando os autores da Porto Editora em edições da Fliporto e atualmente costuma cruzar o Atlântico pelo menos três vezes por ano. “Uma delas, sempre para Pernambuco, onde tenho alguns bons amigos”, revela o agora curador da Babell, que no melhor estilo pernambucano, nasce com ambição de ser o maior evento literário (em linha reta) do mundo.