HaroldodeCampos ago.18

 

A última quinta-feira (16) marcou os 15 anos de falecimento do crítico literário, ensaísta, tradutor e poeta Haroldo de Campos (1929-2003). Intelectual e artista produtivo, assina mais de 30 livros. Era um amante com o qual a linguagem procriou apaixonadamente, para usar a expressão de Guimarães Rosa (ainda que a procriação em ambos se dê de diferentes formas). O concretismo, o engajamento na divisa antropofágica para lidar com a tradição (em linhas gerais, a mastigação metafórica do que é daqui e do que é estrangeiro), o resgate de autores esquecidos (como Sousândrade ou Gregório de Matos).

O esforço da tradução era, para ele, uma "transcriação": o tradutor era um recriador da obra. O caso do gênese - Haroldo estudou por cinco anos o hebraico para traduzir o primeiro livro bíblico de forma poética - é exemplar (segue um trecho abaixo); realizara aquilo que Nicanor Parra define como o ofício do tradutor, a expropriação radical dos poemas originais. 

Deixamos aqui uma pequena seleta poética feita pelo nosso editor-assistente, Igor Gomes, como lembrança da data. 

***

Gênese I [fragmento]

No começar Deus criando
O fogoágua e a terra 

E a terra era lodo torvo
E a treva sobre o rosto do abismo
E o sopro-Deus 
Revoa sobre o rosto da água

E Deus disse seja luz
E foi luz

E Deus viu que a luz era boa
E Deus dividiu
Entre a luz e a treva

E Deus chamou à luz dia
e à treva chamou noite
E foi tarde e foi manhã 
Dia um

***

1984: Ano 1, Era de Orwell

enquanto os mortais
aceleram urânio
a borboleta
por um dia imortal
elabora seu vôo ciclâmen

*

uma dança

de espadas

esta
escrita
delirante

lâminas cursivas

a lua
entre dois
dragões

com uma haste
de bambu
passar
por entre lianas
sem desenredá-las

(de A educação dos cinco sentidos)

***

horácio contra horácio

ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante a ruína a desmemoria

(de Crisantempo: no espaço curvo nasce um)

***

O instante

o instante
é pluma

seu holograma
radia estável

como quem olha pelo cristal
do tempo

feixe fixo
de luz

(já não se vê se o olho deixa sua seteira)

prisma

o sol
chove
de um teto
zenital

elipse: um estilo de persianas


(de Signatia quasi coelum = signância quase céu)

***

circum-lóquio [fragmento]
(pur troppo non allegro) sobre o neoliberalismo terceiro-mundista

laisser faire laisser passer

5.

o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundiários
de banqueiros
-banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
desde que circule
auto-regulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atentos ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil

6.

(a
contramundo o
mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
subservis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus /mamonas)

7.

o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes /coronéis políticos milenaristas (cooptados) /do perpétuo status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre -festa /estática (ainda que se sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)

(A íntegra do poema você encontra AQUI)