Em um tempo marcado por mensagens instantâneas, áudios apressados e conversas que desaparecem na tela do celular, um gesto antigo continua resistindo: escrever cartas de amor. Apesar de serem cada vez mais raras, a prática segue viva entre algumas pessoas - que não usam os Correios para enviar suas mensagens - . mas que através de trocas mão à mão, ou envio pela internet -, buscam transformar sentimentos em palavras, preservando a intimidade e a profundidade que nem sempre cabem na velocidade do mundo digital.
Escritores, talvez pela intimidade com a escrita como linguagem, costumam manter esse hábito. Caso de Leonardo Tonus, que além de escrever textos para a pessoa amada, amigos e parentes, os faz com um diferencial: os executa à mão. Aliás, seus romances também são escritos manualmente.
“Durante praticamente toda a minha juventude, mantive trocas de cartas. Cresci em um tempo sem internet, sem redes sociais, sem mensagens instantâneas. As cartas eram uma abertura para o mundo, uma maneira de atravessar fronteiras sem sair do quarto. Esperávamos semanas por uma resposta, e essa espera fazia parte do próprio sentido da comunicação. Havia algo de profundamente humano naquele intervalo entre escrever, enviar e receber.”, explica.
As cartas de amor produzidas por Tonus, normalmente têm a forma de poemas que ele entrega em mãos. Um deles, foi batizado de “Vocalises matinais celebrando o verão”. O texto traz o tom típico dos apaixonados.
“pousar meu rosto/ em tuas faces
e recolher de teus sonhos
o assombro de meus lábios.
de teus cílios
ouvir o murmúrio dos lagos,
tu que nada pedias,
somente exigias
por entre loucas pernas
alçar voos em apneia,
tontos de amor.”
Leonardo Tonus publicou Antes que as palavras se esqueçam, lançado em 2025 pela Companhia Editora de Pernambuco. No livro, a escrita à mão estava diretamente ligada à forma escolhida para o romance: a carta. A obra é composta por 23 cartas dirigidas a Jamal, um jovem refugiado afegão que chega a Berlim, a pé, aos quinze anos de idade.

Beto Azoubel voltou a escrever cartas para a mulhe amada
O antropólogo e ensaísta Beto Azoubel é conhecido pelos artigos, ensaios, livros e pela ampla participação no universo cultural, mas por trás da fachada de intelectual, é um romântico inveterado, e costuma presentear a namorada com textos amorosos. Eles não são constantes, como os de Leonardo Tonus. Mas são realizados especificamente para a mulher amada, que segundo conta, foi a inspiração para que voltasse a escrever mensagens e cartas.
Uma delas mostra a complexidade dos sentimentos de Beto Azoubel.
“Amo você de um amor a todas provas e circunstâncias.
Um amor como aquele que o vendedor Edward Bloom
dedicou a sua Sandra no filme “Peixe Grande” do Tim Burton.
Quero também lhe contar todas as histórias (com ainda mais imaginação que o próprio Bloom).
Quero lhe levar comigo a todos os lugares, possíveis e inimagináveis
Inclusive a Spectre, o idílico vilarejo do mesmo Tim Burton.
Lá andaremos descalços sobre a grama mais verde,
Lá dançaremos sob a luz da lua mais plena,
Lá onde tudo tem gosto do mel mais doce,
(Lá onde até o ladrão é poeta)
Lá, quem sabe, teremos,
como milenaristas de um futuro improvável,
A paz para o nosso grande amor.
Só tenhamos cuidado:
Spectre pode ser apenas uma sedutora acomodação,
um canto de sereia
(quem alerta é o poeta-ladrão).
Melhor então continuarmos a nossa realidade:
Amo você de um amor à todas as provas e circunstâncias.”
Escrita em novembro passado, a última entregue à amada, Beto Azoubel faz na carta-poesia referências à adaptação feita por Tim Burton para o cinema do romance Big Fish: A Novel of Mythic Proportions, de Daniel Wallace. Misterioso, certamente num gesto de sedução, Beto deixa em aberto se escrevia cartas antes de conhecê-la. Parte do ritual romântico de quem sabe o poder arrebatador que cartas e mensagens podem ter para aprofundar um relacionamento.
Formatos diversos
Apesar de ainda serem escritas, as atuais cartas de amor mudaram de formato. Mais elaboradas, assumem o tom de poesia, de prosa poética ou até de canções. A exemplo do que ocorreu com o escritor Marcelino Freire, que ao escrever um texto para a pessoa por quem estava enamorado, acabou vendo a sua declaração transformada em música.
“Escrevo sim (cartas de amor). Aliás, tem um texto que eu escrevi quando estava apaixonado. Uma espécie de oração futura para quando aquela paixão acabasse. Essa poesia virou canção.” O texto transformou-se na música “Vingança”, em parceria com o artista Revoredo, que pode ser ouvida no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=Y2MfTKVeXZg
Original, apaixonado, o texto carrega a aridez, a explosão dos escritos de Marcelino, que escapa do lugar-comum.
“As duas lâminas de Xangô, eu quero
Dentes afiados de um dinossauro
Porque não, a mandíbula de um tubarão
O punhal de um cangaceiro
O focinho de um cão?
Eu quero o olhar de um guará, certeiro
E no peito, a armadura de arcabuzeiro
O veneno da cascavel
O pontapé de Garrincha ao gol
A fuga de um beija flor, eu quero
Eu quero os hormônios de Hércules
Eu quero os neurônios de Einstein
O ódio de Cristo, o que for preciso
A paciência de Jó, o laço do passarinheiro, sim
Todos os tipos de nós
O poder da água, o fogo e o carvão
As armadilhas do coração
Eu quero São Jorge e seu Dragão
Eu quero
Todas as forças comigo meu amor
Todas as forças comigo meu amor
Para quando você me deixar na mão”

Novas missivas
O escritor Maurício Melo Júnior escreveu cartas de amor nos anos 1980. Época em que morava em Brasília e se correspondia com uma namorada que ficou no Recife. “Tomara que ela tenha pedido ou destruído tais textos certamente ridículos. “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”, ensinou Fernando Pessoa na voz de Álvaro de Campos. Mas logo optamos por nos falar ao telefone e em seguida o amor se foi no meio de outras urgências .”, recorda Maurício, que acredita na seguinte tese: a sua geração foi quem começou a deixar as cartas de lado. A popularização do telefone facilitou o contato entre os enamorados.
Maurício é cético sobre a permanência das cartas de amor. Apesar de confessar que gostaria de que elas continuassem a ser trocadas. “Gosto de imaginar que ainda existe alguém que escreve cartas de amor, embora guarde comigo a certeza de que este é um ser em extinção. O amor, sobretudo o platônico – grande tema das cartas –, ficou fora de moda. E os Correios já não têm tanta credibilidade em suas entregas. É uma situação lamentável.”, afirma.
Mas Maurício não está totalmente certo. A escrita das cartas continua sendo um hábito para várias pessoas. Inclusive as mais jovens. Aos 32 anos, o engenheiro agrônomo Heitor Barros Lapprand começou a escrever cartas há seis anos.
“Eu escrevi minha primeira carta de amor quando me apaixonei. Elas foram motivadas por paixão…Como o amor nunca foi recíproco, as cartas de amor me proporcionaram um sentimento de conclusão, de ter dito o que eu queria dizer e estar livre para seguir em frente.”
O bancário Victor Correia do Nascimento, 43 anos, gosta de escrever para organizar a mente. “Escrever me acalma…Quando coloco no papel os pensamentos e os sentimentos eu consigo ter paz.”
Desde os 17 anos ele escreve cartas, mas deu uma parada por volta dos 25. “No início minha motivação foi amorosa, tive uma namorada na juventude e escrevia para ela. Quando o relacionamento acabou eu também deixei de escrever.”, recorda.
Há cerca de um ano, recomeçou. Tem várias cartas-poesia dedicadas à mulher, Débora. “Normalmente são textos quase prontos que surgem nesse turbilhão de pensamentos. Aí coloco no papel, muito mais inspiração do que transpiração.”
Aos 33 anos, Larissa Lorena também é assídua na escrita de cartas de amor, hábito que cultiva há anos. “Tenho muitas da época de namoro com meu atual marido, eu costumava escrever com frequência, em datas especiais para nós, principalmente.”
Atualmente, já casada, as missivas continuam. “Na verdade, eu as entrego em mãos, não chegam a ser cartas que ponho em correios, sabe? São cartões também, escrevo desde sempre e gosto bastante.”
O motivo para continuar escrevendo cartas, apesar das tantas mídias mais rápidas e instantâneas à mão? Larissa explica: “Porque acredito que expresso melhor meus sentimentos e pensamentos em palavras, tenho certa dificuldade de verbalizar certas coisas, mais íntimas principalmente, então, acabo escrevendo.”
Larissa, como outras pessoas, teve um incentivo de grupos de artistas, que vêm promovendo eventos e obras motivando as pessoas a voltar a escrever cartas.
Um desses eventos começou com o lançamento do livro Encontro escrito à mão: cartas sobre cartas”, escrito conjuntamente por Fábio Lucas e Bruna Maciel, que teve lançamento em setembro passado. O projeto foi desdobrado em oficinas de escrita de cartas. Larissa Lorena, por exemplo, participou de uma delas.
“O livro nasceu de uma experiência minha muito viva com a escrita de cartas, tanto quanto Fábio. Antes mesmo de a ideia surgir, as cartas já atravessavam a minha vida pessoal, porque sempre escrevi muito para familiares e amigos… (à época) eu estava ministrando uma oficina chamada “Entre cartas e sentidos”, e investigando o que acontece quando alguém escreve para uma pessoa específica, com tempo, presença e escuta. E aí eu comecei a perceber como a carta criava uma outra relação com a linguagem. As pessoas desaceleravam, lembravam de memórias e escreviam coisas que talvez não conseguissem dizer em outros formatos.”, conta Bruna Maciel.
Fábio Lucas também estava mergulhado nesse processo. Ele tinha participado como mediador de uma série de conversas com especialistas na obra epistolar de Drummond, para o Flitabira. “Foi daí que Fábio me convidou: “E se a gente trocasse cartas sobre cartas?””, relembra Bruna.
A dupla não foi a única a investir na troca de correspondências. A tentar desacelerar o registro de emoções e pensamentos que, em alguns casos, se tornaram verdadeiras obras-primas, atualmente registradas em livros.
As escritoras Morgana Kretz e Aline Bei, por exemplo, estão em cartaz com a peça “Cartas a uma escritora”, que está sendo encenada no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo. “Nós trocamos quase 30 cartas, por e-mail, eu e a Aline, durante meses, mas a gente utilizou mais ou menos metade disso para fazer essa leitura encenada, porque senão ela também ficaria muito longa.”, conta Morgana.
A escritora Larissa Garrido também se arrisca em escrever cartas ocasionalmente. Mas seu interesse é por interferência da mãe Benvinda Garrido, cujas cartas de amor ao atual marido, à época namorado, são um patrimônio da família.
“(As cartas são) Especialmente patrimônio da nossa história: quando eu o conheci, estava de férias em Recife. Então resolvemos continuar o namoro por cartas, e telefonemas. Nesse tempo (1987), as ligações eram extremamente caras, e o telefone era artigo de luxo. E as cartas viabilizaram um pouco mais. Então a espera era cheia de ansiedade e saudade. Eu ainda vigiava a chegada do carteiro, pois o namoro era escondido, e eu precisava interceptar as cartas antes dos meus pais. Todos esses sentimentos giravam em torno das cartas, e fizeram parte da nossa história.”, lembra com saudades.
Atualmente, Benvinda continua escrevendo. “Hoje a escrita de cartas não é cotidiana, mas tenho uma filha escritora, poeta e professora de escrita criativa, portanto a escrita está sempre presente em minha vida…. A emoção é tão forte e tão marcante quanto as das cartas de amor, pois esse é um amor especial. A escrita tem essa força de transformação, de sentir, de pulsar. Pulsa vida.”