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Eu diria tempestade. Eu diria rio. Eu diria tornado. Eu diria árvore. Eu diria molhado por todas as chuvas, umedecido por todos os rosados. Eu rolarei como sangue frenético sobre a lenta corrente do olho das palavras em cavalos loucos em meninos viçosos em coágulos em tampas em vestígios de templos em pedras preciosas, o suficientemente longe para desencorajar os menores. Quem não me compreende tampouco compreenderá o rugido do tigre.
(Aimé Césaire, Caderno de um retorno ao país natal)

Há 10 anos, aos 17 de abril de 2008, os jornais do mundo noticiavam o falecimento de Aimé Césaire. Foram 94 anos de uma trajetória de vida intensa, dedicada à ação política e à criação literária. Poeta, dramaturgo, político, incansável crítico do colonialismo e do capitalismo, intelectual engajado na luta pela descolonização do ser e do imaginário, Aimé Césaire, mais do que um homem, é essa grande árvore ancestral cujas raízes atravessam o espaço-tempo das geografias do mundo, rompendo fronteiras, interligando as partes e os povos da África às texturas dos territórios da diáspora.

Césaire nasceu aos 25 de julho de 1913, em Basse-Pointe, região norte da Martinica. Filho de Fernand Elphège Césaire, administrador da fazenda Eyma, e de Eléonore Hermine, costureira, ele foi o segundo dos seis filhos do casal. Após uma etapa de estudos no Liceu Schoelcher, em Fort-de-France, quando conhece aquele que será seu grande amigo, Léon-Gontran Damas, Césaire se muda para Paris em 1931 a fim de prosseguir seus estudos em Letras no Liceu Louis-le-Grand. Será, pois, nessa época da juventude que ele conhecerá Léopold Sédar Senghor. Junto com Damas, os três jovens amigos iniciarão, assim, o movimento literário da negritude como uma reação ao ambiente segregacionista presente em Paris dos anos 1930. A partir da presença e da vivência de estudantes negros na metrópole francesa, sobretudo oriundos das Antilhas e da África, sofrendo os efeitos da colonização e da violência iminente da Segunda Guerra Mundial, a reivindicação do corpo sociocultural africano se fez presente no engajamento dos jovens mentores da negritude. A força e a dimensão contestatória dessa palavra criada por Aimé Césaire são compreendidas pelo antropólogo Kabengele Munanga, em sua célebre obra Usos e sentidos da Negritude (1998), como “um novo nome, um conceito, todo um vocabulário nasce nesse contexto, para onde se canalizam os debates: a negritude, quer dizer, a personalidade negra, a consciência negra.”

Após a publicação da revista Légitime Défense (1932), por um grupo de estudantes antilhanos – dentre os quais, Étienne Léro, Réne Menil e Jules Monnero –, Paris verá nascer a revista Étudiant Noir (1934), da qual os amigos Aimé Césaire, Léon Damas e Léopold Sédar Senghor estavam à frente, junto com outros jovens intelectuais negros. A tônica sobre a valorização das origens e ancestralidade africanas, a enunciação de um sujeito negro, capaz de questionar e combater o eurocentrismo dos discursos e da visão de mundo corrente na Europa moviam o grupo. Kabengele Munanga, em sua frutífera análise sobre tal fenômeno, salienta que “O exame da produção discursiva dos escritores da negritude permite levantar três objetivos principais: buscar o desafio cultural do mundo negro (a identidade negra africana), protestar contra a ordem colonial, lutar pela emancipação de seus povos oprimidos e lançar o apelo de uma revisão das relações entre os povos para que se chegasse a uma civilização não universal como extensão de uma regional imposta pela força – mas uma civilização do universal, encontro de todas as outras, concretas e particulares”.

É importante ressaltar que a negritude como um conceito, uma ideia ou mesmo uma palavra sofreu ao longo do tempo modificações, alterações de sentidos e significâncias, o que confirma sua plasticidade e sua força simbólica, capazes de acompanhar as mudanças nos universos identitários de diversas comunidades negras do mundo. A revolução do movimento da negritude se expandiu na França a partir dos anos 1930, pela concepção de um vasto número de produção intelectual, teórica e artística, em valorização da cultura negro-africana como elemento universal, encontrando maior concretude nas páginas da obra monumental Cahier d’un discours au pays natal (Caderno de um retorno ao país natal), de Aimé Césaire. A obra começou a ser escrita em 1935, um ano após o seu ingresso na École Normale Supériere, época em que também fora diretor da Associação dos Estudantes Martinicanos. Césaire, então, estava na Croácia, hospedado na casa de seu amigo Petar Guberina, quando iniciou o processo de escrita do Caderno. Desde a sua primeira publicação, em 1939 na revista Volontés, a obra sofre modificações, tendo sido amplamente traduzida e publicada por diversas editoras.

No Brasil, a obra foi traduzida e publicada muito tardiamente. Como primeira tradução identifiquei em minhas pesquisas o trabalho realizado pela editora Terceiro Milênio, com tradução de Anísio Garcez Homem e Fábio Brüggemann. Contudo, essa edição não teve ampla circulação em livrarias do país. Em 2012, a Edusp lança Diário de um retorno ao país natal, traduzido e comentado por Lilian Pestre de Almeida, estudiosa da obra cesairiana e da literatura antilhana de língua francesa. Contudo, essa publicação não alcançou a celebração que merecia nos circuitos literários e na imprensa, embora a excelência do trabalho desempenhado por Pestre de Almeida tanto no plano da tradução do poema, quanto na análise crítica da obra. Aliás, essa mestria, que se expressa na compreensão do todo da obra cesairiana, sem deixar de dialogar com as narrativas historiográficas da Martinica, já se nota em uma nova edição do Cahier pela editora L’Harmattann, em 2008, cuja autoria analítica é de Lilian Pestre de Almeida.

Parece-nos que, muito embora nos circuitos acadêmicos e nos grupos organizadores dos movimentos sociais negros, de meados do século XX ao XXI, o nome de Césaire circule como um símbolo de resistência ao colonialismo, como voz combatente ao capitalismo, o conjunto de sua obra ainda é desconhecida no Brasil. Ainda assim, não podemos deixar de mencionar aqui os trabalhos desempenhados pela estudiosa Zilá Bernd, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que tem colaborado com o alargamento da fortuna crítica do autor. O fato é que a produção literária e ensaística de Aimé Césaire recobre um período extenso, que vai dos anos 1930 a 2008, quando as Edições Seuil publica, apenas dois meses antes de seu falecimento, a antologia de poemas Ferrements et autres poèmes, prefaciada por Daniel Maximin. “A palavra essencial”, que recobre quase 80 anos de escrita poética e engajamento político, convida o leitor brasileiro – e os de outras geografias – a um pacto a favor da vida e do futuro do mundo, como nos lembra Maximin: “(...) não para reter o tempo, não para circunscrever o espaço, mais para transmitir a sede daquilo que deve ser dito, e a esperança fértil de desejos que se afastam da intimidação glacial, de desvios criminosos e das racionalidades sombrias”.

 

Caderno de um retorno ao país natal

Au bout du petit matin...” (“Ao final do amanhecer...”) é o verso disparador desse denso poema, de tom hermético, cifrado. Tal como um mistério a ser revelado, o poema se apresenta em movimento de abismo. Os versos criam um conjunto de imagens encaixadas, espécie de sonho acordado, momento em que o inconsciente humano se comunica com a realidade e plasma um outro mundo. O eu poético, assim, vê além. A poesia lança-se ao horizonte, convocando a geografia da Martinica e das ilhas antilhanas, convocando a ancestralidade e a potência cultural dos quatro cantos do mundo – África, Américas, Europa, Ásia. Sobre essa diferença percebida na composição das paisagens sociais antilhanas, em Da diáspora: identidade e mediação cultural (2003), Stuart Hall, crítico jamaicano, brinda-nos com uma sagaz leitura da complexidade diaspórica dessas ilhas e de seus processos de hibridez cultural:

Nossos povos têm suas raízes – ou, mais precisamente, podem traçar suas rotas a partir dos – nos quatro cantos do globo, desde a Europa, África, Ásia; foram forçados a se juntar no quarto canto, na ‘cena primária’ do Novo Mundo. Suas ‘rotas’ são tudo, menos ‘puras’. A grande maioria deles é de descendência (ascendência) ‘africana’ (...). Sabemos que o termo África é, em todo caso, uma construção moderna, que se refere a uma variedade de povos, tribos, culturas e línguas cujo principal ponto de origem comum situava-se no tráfico de escravos (escravizados). No Caribe, os indianos e chineses se juntaram mais tarde à África: o trabalho semiescravo entra junto com a escravidão. A distinção de nossa cultura é manifestamente o resultado do maior entrelaçamento e fusão, na fornalha da sociedade colonial, de diferentes elementos culturais africanos, asiáticos e europeus”.

Desse modo, a leitura do poema cesairiano realoca no presente o passado histórico das Antilhas, quando se destaca, na textura do texto, a matéria pluricultural e pluriétnica dos povos criadores dos arquipélagos; quando se reconhece a importância fulcral do corpo cultural africano na constituição do povo antilhano; mas não só, quando a palavra poética possibilita que enxerguemos, no corpo cultural do mundo, a altivez, as dores, a beleza, as cicatrizes, a memória viva da África.

“O que é meu, estes poucos milhares de moribundos que giram em círculo dentro de uma cabaça de uma ilha que também é minha, o arquipélago arqueado com o desejo incansável de negar-se, parece uma ansiedade materna de proteger a espessura mais delicada que separa uma América de outra; e seus flancos que expelem para a Europa o bom licor de Golfo Stream, e uma das suas vertentes de incandescência entre as quais o Equador vangloria-se em direção à África. (...) Haiti onde a negritude se pôs de pé pela primeira vez e disse que acreditava em sua humanidade e o cômico rabo da Flórida onde se consuma o estrangulamento de um negro, e a África enorme descendo até o pé hispânico da Europa, com sua nudez onde a Morte ceifa com grandes foiçadas.” (Caderno de um retorno ao país natal).

Pela “palavra essencial”, a obra cesairiana nos convida a um mergulho na alma negra do mundo, descortinando as mazelas provocadas pelos regimes coloniais, a violência do racismo, a desolação das mentes colonizadas e a potência de revanche contra as estruturas de aniquilamento do ser e do espírito. Como uma recusa eloquente à raiz única e europeia, ideologia do projeto assimilacionista do regime colonial francês e direcionado à diversidade dos povos colonizados, o poeta se vê humanamente plural, uma bricolagem diversa de humanidades possíveis:

“Partir.
Como existem homens-hienas e homens- [panteras, eu serei
um homem-judeu
um homem-cafir
um homem-hindu-de Calcutá
um homem-do-Harlem-que-não-vota”

(Caderno de um retorno ao país natal)

 

Tropiques e o retorno ao chão martinicano

Minha boca será a boca dos infortúnios que não têm boca; minha voz, a liberdade daquelas que se desesperam no calabouço do desespero
(Caderno de um retorno ao país natal)

A crítica ao colonialismo e aos efeitos sentidos nas Américas, mais localmente na Martinica, que já se explícita nas páginas do Caderno de um retorno ao país natal, se tornará mais evidente em seus escritos com a volta de Césaire, já casado com a intelectual Suzanne Roussi, à Martinica em 1939. De fato, eles se casaram em 1937, no ano seguinte ao término dos estudos de Letras realizados por Suzanne, em Toulouse. O intelectual camaronês e diretor da revista Présence Africaine, Romuald Fonkoua, em sua biografia de Aimé Césaire (Perrin, 2010), vê o casal como “intelectuais modernos”, confirmando a imagem de um “duo perfeito” e até mesmo enxergando na dupla algo que os ligava à “experiência de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir”. Em suma, de acordo com Fonkoua, Suzanne Césaire será a “intelectual total que conduziria com seu marido a aventura do despertar martinicano, a partir de seu retorno ao país natal”.

Ao longo dos anos como professores de literatura, de 1939 a 1945, a influência de Césaire na formação de um grupo de intelectuais martinicanos é incontestável. Com a empreitada da criação da revista cultural Tropiques, criada por Césaire, cujo corpo editorial contará com o apoio de Suzanne, evidentemente, e de outros professores – René Ménil, Aristide Maugée, Lucie Thésée –, a missão, no plano da construção de estratégias para a descolonização do ser e do imaginário martinicano, parece alcançar mais concretude. O primeiro número de Tropiques será lançado em abril de 1941 e as bases filosóficas da ação poética e política de Aimé Césaire se tornarão mais realçadas – é o momento de transformar a palavra poética em ação transformadora da realidade.

Desde a publicação do Caderno de um retorno ao país natal, a crítica à obra de Aimé Césaire considerou uma grande influência da estética surrealista francesa, em especial de André Breton, sobre sua escrita literária. Contudo, nos tempos de Tropiques, há um diálogo preponderante entre a poética e ensaística cesairiana com a obra L’histoire de la civilisation africaine, de Leo Frobenius (1873-1938), etnólogo alemão. Frobenius via nas civilizações africanas uma capacidade à profundidade das coisas do mundo. Diante da realidade da Martinica, marcada por agenciamentos coloniais que criaram espaços de falta, de vazios estruturais, que impediam o surgimento de bibliotecas, de centros de estudos e pesquisas, de universidades, Tropiques torna-se esse espaço movediço de conhecimento, feito de bricolagens, de partilha de saberes, de retorno imaginário à África, realçando o papel do continente africano como civilizador do mundo, atinando para a enunciação da identidade martinicana, também herdeira dos povos africanos.

É o que podemos ler no artigo, Leo Frobenius et le problème des civilisations, de Suzanne Césaire, publicado no primeiro volume da revista Tropiques e reeditado na obra Le grand camouflage – écrits de dissidence (1941-1945), da autora: “Bem, parece inestimável o benefício da África para aquele que se coloca a angustiante questão do futuro humano: ‘Para nós, a África não significa somente um alargamento em direção a outro lugar, mas também um aprofundamento em nós-mesmos’”. Ao longo da existência de Tropiques – com seus 14 volumes publicados na Martinica de 1941 a 1945 – cobrindo, portanto o conturbado momento da Segunda Guerra Mundial, a revista recebeu censuras até ser definitivamente proibida em 1943, conseguindo apenas ser republicada, em 1944, após a Libertação da França. Nesse mesmo ano, em seu artigo Panorama, publicado em Tropiques, Césaire lança um grito obstinado, anunciador do que seria sua conduta futura como um poeta no mundo da política institucional da ilha:

“O pior erro seria acreditar que as Antilhas desnudas de partidos políticos potentes são desnudas de vontade potente. Nós sabemos muito bem o que queremos. A liberdade.

A dignidade. A justiça. Natal queimado.

Um dos elementos, o elemento capital do mal-estar antilhano, a existência nessas ilhas de um bloco homogêneo, de um povo que desde três séculos busca se expressar e criar (...) a Revolução martinicana será feita em nome do pão, claro, mas também em nome do ar e da poesia (o que quer dizer o mesmo)”.

 

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Um poeta na política

Sofrendo os efeitos da invasão nazista na França, durante o governo de Vichy (1940-1944), a Martinica, em sua condição de colônia francesa, se transformara em uma forte, estratégica zona militar. A busca por Aimé Césaire e pelos intelectuais de Tropiques por uma escrita literária martinicana, em liberdade, descolada dos padrões literários e dos comportamentos franceses, revitalizadora da língua e do imaginário crioulo, leva Césaire a um enfrentamento direto, de tom panfletário, contra o regime de Vichy e contra as autoridades francesas presentes na ilha. Esse tom rebelde, que estará presente em seu personagem, o “Rebelde”, recorrente em obras futuras, ganhará corpo após a viagem do casal Césaire ao Haiti, em 1944.

Nessa ocasião, ele é convidado a uma estadia em Porto Príncipe para conferências e estudos. É o momento da descoberta do maravilhoso haitiano, do vodu, das danças, da fonte de uma corporeidade e de uma oralidade negra antilhana. É o momento da descoberta da história e das relações político-econômicas da primeira colônia negra a lutar contra seus invasores e a conquistar sua independência, no início do século XIX. A viagem ao Haiti o inspirará a escrever capítulos da peça teatral Et les chiens se taisaient, um ensaio sobre ao herói da revolução haitiana, Toussaint Louverture, e a peça La tragédie du roi Christophe

Dessa consciência profundamente alicerçada na compressão universalizante do mundo negro e insuflada pela esperança trazida pelo fim da Segunda Guerra Mundial, o poeta transfigura-se no homem da política institucionalizada, acreditando na possibilidade da criação de uma nova era. Assim, ele alcançará espaço de poder na ilha, como prefeito de Fort-de-France (1945-2001), membro do Partido Comunista Francês (1945-1956), deputado na Martinica em Paris (1945-1993), relator da polêmica lei da departamentalização das colônias ultramarinas francesas (1946), fundador do Partido Progressista Martinicano – PPM – (1958). Influenciando a insurreição dos intelectuais negros das margens, por sua escrita e por suas ações, Aimé Césaire também sofrerá os efeitos da crítica local e internacional. Espírito complexo, por vezes, sujeito contraditório em suas decisões políticas, apaixonante em sua fidelidade ao ideal da negritude e à liberdade de criação dos povos subjugados pela ordem colonial e neocolonial, é inegável que seus gestos de insubordinação geraram um terreno fecundo, um outro mundo. Precursor do movimento dos intelectuais negros da diáspora, junto com Alioune Diop, que desembocará na criação da Revista Présence Africaine (1947); protagonista da ácida crítica ao colonialismo, no seu brilhante ensaio Discurso sobre o colonialismo (1948); crítico do eurocentrismo do Partido Comunista Francês, como leremos em sua Carta a Maurice Thorez (1956), Aimé Césaire é essa árvore ancestral, feita de “natureza essencial”, é o imenso Fromager martinicano, a árvore sagrada que transplanta, de diferentes maneiras e ao longo do tempo, os negros do mundo à terra materna, a África.

 

Para dizer Diáspora, para viver esperança

Au bout du petit matin... Em 2013, eu chegava a Martinica para um estágio de pesquisa sobre seus célebres intelectuais. Naquele tempo diaspórico, eu ouvia as histórias dos movimentos negros do mundo, aprendia com Olabiyi Yai, linguista e poeta beninense, sobre o poder e a beleza de Les armes miraculeuses. Aprendia sobre os sulcos marinhos, as transgressões, as reinvenções de nossa história. Nessa busca pela “palavra essencial”, era Césaire quem me levava à Martinica, me possibilitava o encontro, pleno de cumplicidades e descobertas, com a antropóloga brasileira Magdalena Toledo, estudiosa das apropriações do poeta na arte contemporânea da ilha. E, hoje, quando eu me reinvento no Ceará, no entrelugar das Áfricas no Brasil, ainda é Césaire quem me leva a encontrar, em Paris (ao acaso?), um jovem pesquisador curdo, Serdar Ay, tradutor da palavra poética cesairiana. Quando perguntei a Serdar porque escolheu traduzir a obra de Aimé Césaire, ele me respondeu como que traduzindo o sentimento profundo que nos movimenta a toda humanidade do mundo:

“Eu traduzo Césaire porque eu quero que Césaire seja curdo e que o curdo seja Césaire, preto, negro. Pois eles se conhecem há muito tempo... Há apenas uma barreira linguística entre eles. É preciso tirá-la. Todos os espaços coloniais, pós-coloniais ou oprimidos precisam se conhecer, se sentir, se imaginar mais...”

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